"Nos passos do pastor" é o caminho de um peregrino em direção à cidade celestial.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
MANTENDO A UNIDADE NA VERDADE
COMO MANTER A UNIDADE NA VERDADE
2João
INTRODUÇÃO: Existe hoje um movimento que iniciou-se tempos atrás que se chama “ecumenismo”, cujo significado é “reunir a casa”, “união da casa”. O ecumenismo é a busca pela unidade entre todas as igrejas cristãs. Contudo, ao observarmos as Escrituras, notamos uma direção que contraria esta visão, ou seja, a unidade não é ilimitada. Ela contém certos limites. O limite da unidade entre os cristãos é a “verdade”. Pelo menos é isso que nos mostra o ensino do apóstolo João. Sua real preocupação é que a “senhora eleita” - que aqui pode ser uma figura feminina ou uma representação da igreja - não permita a entrada de qualquer coisa falsa em sua casa (v 10).
Hoje vivemos uma cruel invasão em nossos lares de princípios e condutas que contrariam frontalmente a fé e a ética cristã. Os mestres apóstatas estão invadindo nossas igrejas e nossos lares, tentando influenciar a sociedade e as famílias cristãs. Tito enfrentou esse problema em Creta (Tt 1:10,11), Timóteo também em Éfeso (2Tm 3:6). A condição dos lares determina a condição da igreja e do país. Um lar que mantém a sua unidade na verdade é um lar forte, gerando assim igrejas fortes.
F.T: A questão que João nos responde é a seguinte:
“Como manter a unidade na verdade diante da enxurrada de mentiras e enganos que invadem nossos lares cotidianamente?”
1. Para manter a unidade na verdade é preciso CONHECER A VERDADE (v 1-3). Notemos que João utiliza o termo “verdade” quatro vezes, de modo que se trata de uma palavra importante.
Há três observações importantes aqui sobre a “verdade”:
1. Esta “verdade” nos foi revelada em Jesus Cristo (Jo 14:6) e em sua Palavra (Jo 17:17). O próprio Deus tomou a iniciativa de se revelar a nós, mediante a sua Palavra e mediante a pessoa, vida e obra de Jesus Cristo.
2. Esta “verdade” permanece em nós (v 2). A verdade de Deus, apesar de bombardeada por heresias e mentiras por parte dos falsos mestres apóstatas, será vitoriosa na vida de seus eleitos, pois “Nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo” (Rm 8:39).
3. Esta “verdade” nos conduz a amar (v 1). “A quem eu amo na verdade”. O conhecimento da verdade não é apenas um assentimento intelectual a um conjunto de doutrinas reveladas na Bíblia, mas sobretudo uma vida de “amor na verdade”. O que significa “amar na verdade”? Primeiro, significa amar a verdade, ou seja, amar a Cristo e sua Palavra. Segundo, significa amar o próximo tendo como fundamento a verdade da Palavra de Deus e de Jesus Cristo.
APLICAÇÃO: Cada cristão é chamado por Deus para conhecer a verdade:
(1) Estudando cuidadosamente a Palavra de Deus e permitindo que o Espírito Santo nos ensine;
(2) Ouvindo mestres e pregadores fieis na fé e colocando em prática o que aprendemos;
(3) Absorvendo esta verdade com a mente, mas também com o coração, isto é, amando a verdade e sujeitando-nos a ela.
“Uma boa teologia começa na cabeça, desce ao coração e, por fim, às mãos” (Roger Olsen). “Devemos ter luz na cabeça e fogo no coração” (M.L.Jones).
2. Para manter a unidade na verdade devemos ANDAR NA VERDADE (v 4-6).
“Andar na verdade” significa OBEDIÊNCIA! (v 4). É muito mais fácil conhecer a verdade, ou até mesmo discuti-la, do que colocá-la em prática.
Há no texto algumas marcas importantes sobre a obediência:
1. A obediência alegra o coração de Deus (v 4a). O apóstolo João diz : “Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade” (3Jo 4). Jesus, ao ser batizado por João, recebeu a chancela do Pai: “Este é o meu Filho amado, em quem eu tenho todo o meu prazer”.
2. A obediência é a virtude por excelência do cristão. Isto significa que somos salvos “para” a obediência e não “pela” obediência. Paulo, escrevendo aos efésios, diz: “Criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas” (Ef 2:10). O que Deus mais espera de seus filhos é a obediência (Mt 7:21-27). “Obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15:22).
3. A obediência é uma expressão do amor a Cristo e ao próximo (v 5,6). “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama”. Aquele que ama a Cristo é aquele que o obedece. A obediência é a grande e mais importante virtude do cristão. Quem ama a Cristo, submete-se a sua Palavra. Quem ama o próximo, faz por ele o que espera receber (Mt 7:12).
APLICAÇÃO: A hipocrisia é um grave problema que assalta a religião. Foi o grande embate de Jesus com os escribas e fariseus (Mt 24): “Dizem, mas não fazem; legislam, as não cumprem; trabalham com o fim de serem vistos; ensinam os outros, mas não ensinam a si mesmos; pregam que não se deve furtar, mas furtam; dizem para não cometer adultério, mas cometam; abominam os ídolos, mas roubam o Templo (Rm 2:21-24).
3. Para manter a unidade na verdade devemos PROTEGER A VERDADE (v 7-11).
Devemos proteger a verdade de QUATRO “PERIGOS” que a igreja e as famílias enfrentam:
1. O primeiro perigo é a DISPLISCÊNCIA (V 7). É o perigo da falta de vigilância! Mensagens e mensageiros enganosos estão por toda a parte. Alguém já constatou que “enquanto a mentira dá a volta ao mundo, a verdade ainda está calçando os sapatos”. Precisamos atentar para o que entra portas adentro de nossas casas e de nossas igrejas. Precisamos estar atentos às mentiras e aos enganos que deturpam, deterioram e distorcem a verdade de Deus. “Vigiai”, foi a exortação de Jesus aos cristãos, no intervalo entre a primeira e a segunda vinda.
2. O segundo perigo é o RETROCESSO (V 8). É o perigo de perder o que foi obtido! Um exemplo muito claro desse retrocesso ocorreu na igreja dos gálatas (Gl 4:11). Houve um retrocesso na fé, um retorno aos rudimentos da lei, uma supervalorização de Moisés. Retroceder é mais fácil do que avançar. Destruir é mais fácil que construir. Quando a família ou a igreja retrocede, perde parte das bênçãos devidas à perseverança. A igreja de Éfeso retrocedeu no amor (Ap 2:4). “Contudo”, escreveu o escritor da carta aos Hebreus, “nós não somos daqueles que retrocedem…” (Hb 10:39).
3. O terceiro perigo é o ACRÉSCIMO (v 9). É o perigo de “ir além”! É o perigo de ultrapassar os limites impostos pelas Escritura e fazer acréscimos a Palavra de Deus (Dt 29:29). O principal perigo de nossos dias não é ficar aquém do ensino bíblico, mas sim ir além. Isto é, ultrapassar o que a Bíblia diz e introduzir ensinos e doutrinas que não encontram respaldo no texto das Escrituras. Este perigo encontra expressão hoje no liberalismo teológico e no neopentecostalismo. No liberalismo porque desacreditam de diversas doutrinas fundamentais da fé cristã, reinterpretando-as com bases expúrias; no neopentecostalismo porque vão além do texto, na medida que introduzem doutrinas e ensinos contrários e alheios às Escrituras, dando-lhes, contudo, uma roupagem cristã (Sl 23:1; Fp 4:13; Hb 13:8).
4. O quarto e último perigo é a CONDESCENDÊNCIA (v 10-13). É o perigo de conviver com o erro! É o perigo de dar ouvidos ao ensino anticristão, provenientes de falsos mestres que representavam grupos sectários e hereges. João adverte a igreja a não receber os falsos mestres que os visitavam, desejando ter comunhão com eles e talvez até desfrutar de sua hospitalidade. Po que João era tão inflexível quanto a essa questão? Primeiro, porque não queria promover o falso ensino; segundo, porque não queria que os crentes fossem contaminados pelo falso ensino; e terceiro, porque não queria colaborar com a disseminação dos falsos ensinos na igreja. No entanto, devemos ter o cuidado de compreender que aqui não se trata de receber somente convertidos em casa. O evangelismo por amizade é uma maneira poderosa de ganhar pessoas para Cristo. O que João admoesta aos crentes é que não recebam em suas casas e nem incentivem pessoas que representam seitas ou grupos sectários com ensinos falsos que tentam seduzi-los.
CONCLUSÃO
Para manter a unidade na verdade devemos, portanto: conhecer a verdade, andar na verdade e proteger a verdade. Não devemos esquecer que a ênfase principal de João nesta epístola é a necessidade de permanecer alertas. O mundo está cheio de enganadores!
quarta-feira, 12 de março de 2014
O CUIDADO COM A VIDA - O Aborto é Contra as Mulheres
Fiquei aterrorizado uns dias atrás quando ouvi em uma entrevista a ministra das Mulheres dizer que considera o aborto uma espécie de “libertação das mulheres”, especialmente as mais pobres. Indignado, quero demonstrar por que o aborto é moralmente injustificável, além de desmoronar algumas falácias históricas. O que percebo, de antemão, em pessoas como a senhora ministra é um preconceito anticristão que chega a assustar, uma militância antirreligiosa que aceitaria de bom grado a tarefa de eliminar os católicos e os evangélicos em nome de seu apodrecido progresso social. Por que, então, os fetos não poderiam pagar por isso, não é mesmo?
Voltemos a magnífica tese da senhora ministra de que “o aborto é expressão da libertação das mulheres”. Vamos fazer um breve passeio pelos inícios do cristianismo, a fim de verificar esta pérola de afirmativa. Por volta do primeiro e segundo séculos, havia em Roma 131 homens para cada cem mulheres e 140 para cada cem na Itália, na Ásia Menor e na África. Esse número é devido ao infanticídio de meninas e de meninos “deficientes” ser moralmente aceitável e praticado em todas as classes. Com a chegada do cristianismo, Cristo santificou o corpo, fazendo-o bendito, porque morada do Espírito Santo, cuja imortalidade já havia sido declarada pelos gregos. Com Jesus, o ser humano agora independe de qualquer condição ou qualidade prévia para integrar a irmandade universal. As mulheres, por razões muito práticas e culturais de sua época, gostaram. O casamento cristão, que é indissolúvel, tem agora as obrigações do marido semelhantes ao da mulher. A unidade da família era garantida com a proibição do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal, da poligamia e do aborto, a principal causa, então, da morte de mulheres em idade fértil. O discurso e a tese da senhora ministra e do feminismo radical se voltam contra as benditas interdições cristãs que auxiliaram a formar a família, a propagar a fé e a proteger as mulheres da sujeição, vergonha e morte.
Nos primórdios do cristianismo, a fé se espalhou nas cidades. Para comprovar isso basta dar uma lidinha no Novo Testamento, principalmente em Atos dos Apóstolos e observar a estratégia do apostolo Paulo em pregar nas grandes cidades conhecidas de sua época. Um caso, contudo, ilustra bem o motivo de tal avanço. Entre 165 e 180 a peste matou no curso de quinze anos praticamente um terço da população do império Romano, incluindo o imperador Marco Aurélio. Outra epidemia, em 251, provavelmente de sarampo, também matou muitos. Contudo, a compaixão, a misericórdia e o amor ao próximo dos cristãos fizeram com que a taxa de sobrevivência entre eles fosse maior que entre os pagãos. O ambiente miserável das cidades, de fato, contribuía para a pregação da fraternidade cristã universal. Não, senhora ministra, o cristianismo, na origem, é a religião da solidariedade e da vida, e não da exclusão como dizem a senhora e seus lacaios. E a interdição do aborto (seria tão bom se estas pessoas fossem estudar um pouco!), conferiu dignidade à mulher e protegeu-a da humilhação e da morte, bem como todos os outros valores que constituem algumas das noções de família que vigoram até hoje. A família que hoje eles chamam pejorativamente de “família burguesa” é, na verdade, na origem, a família cristã, muito antes do desenvolvimento do capitalismo. O que o cristianismo fez, dentre muitas coisas, foi expandir a proteção às mulheres e às crianças. Na China, por razões culturais e econômicas, os casais sob o controle da natalidade têm apenas um filho. Eles optam, então, por um menino e praticam o chamado aborto seletivo: “É menina? Então tira!”. Nesse particular, a China é certamente o paraíso de algumas de nossas feministas e da senhora ministra, e também de muitos dos nossos psicólogos sociais, não é? A prática a que se chama “libertação da mulher” por lá serve para matar mulheres! Daí, a China moderna, de primeiro-mundo, repetir as mesmíssimas brutalidades combatidas pelo cristianismo primitivo.
Que desgraça de humanismo vigarista é esse que estabelece as precondições para que uma vida humana possa ser considerada “viável”? Se não querem ver no corpo humano a habitação de Deus, que o considerem, ao menos, a morada do “homem”.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
A PRÁTICA DO CUIDADO: A Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37)
A história do bom samaritano, contada por Jesus, é uma das mais famosas e inspiradoras de toda a Escritura. Ela tem sido lida e interpretada de várias formas, demonstrando a riqueza de sua mensagem e aplicação. Além disso, ela também demonstra as três práticas que regem a conduta humana. Vejamos.
A primeira prática que rege a conduta humana é a prática do egoísmo criminoso. É a prática do salteador (v 30). É aquela que usurpa o direito e os bens do próximo em benefício próprio. É aquela que procura os seus próprios interesses explorando e roubando o outro. Isso é muito comum e se pratica de muitos modos em nossos dias, quando os recursos são canalizados para o bolso de alguns que se favorecem a custa da dor e do sofrimento dos outros.
A segunda prática é a prática do egoísmo comodista. É a prática do sacerdote e do levita (v 31,32). Passaram ao lado do infeliz moribundo, vítima da violência, e o desprezaram. Estes são aqueles que não querem fazer nada em benefício dos outros; não querem sair de suas comodidades. Preferem ignorar os que sofrem, cujas dores não lhes causa nenhum pesar.
A terceira prática que rege a conduta humana é a prática do altruísmo sacrificial. É a prática do samaritano (v 33-35). Ele revelou esse sentimento em alto grau na prática do cuidado e do amor sacrificial, sacrificando sua comodidade, seu tempo e seu dinheiro. Estes são aqueles que vivem e trabalham pelo bem da humanidade, expressando em suas mãos o cuidado terno e misericordioso para com os machucados pela vida.
Qual dessas três práticas Cristo requer de sua igreja? A resposta provém dEle mesmo: “Vai e procede tu de igual modo do samaritano” (v 37).
terça-feira, 17 de setembro de 2013
O PASTOR INVISÍVEL COM ROUPAS COMUNS
Ouvi-o esta semana. Soou-me como um pequeno gracejo que me provocou riso: “Os pastores são invisíveis seis dias por semana e incompreensíveis no sétimo”. Não sei quanto à parte do incompreensível, mas o fato é que, de fato, os pastores são invisíveis seis dias por semana. Geralmente o único momento em que as pessoas da igreja nos vêem em ação é quando dirigimos os cultos. Existem algumas outras ocasiões em que realizamos nosso trabalho em público: funerais, casamentos, formaturas. Contudo, quando aconselhamos no gabinete, só a pessoa fica sabendo. Quando visitamos os enfermos, só o doente e sua família ficam sabendo. Quando escrevemos uma carta, só a pessoa que recebe é que fica sabendo. Quando oramos, só Deus sabe. A maior parte das pessoas que pastoreamos tem muita visibilidade no seu trabalho: os professores na sala de aula, homens e mulheres em seus escritórios, policiais em sua corporação, médicos e enfermeiros nos hospitais, funcionários públicos em suas repartições. Não é assim com os pastores. Quando não estamos no santuário, as pessoas a quem pastoreamos nos vêem apenas de forma esporádica. Boa parte do nosso trabalho mais importante é realizado nos bastidores. O que as pessoas vêem no domingo é só a ponta do iceberg.
Gostaria de encontrar meios que transmitissem um pouco das invisibilidades que mantém juntas a vida do pastor e igreja, como povo de Deus, quando não estivéssemos visivelmente juntos. Queria, tanto quanto possível, que as pessoas de minha igreja tivessem acesso às “invisibilidades” da minha vida de pastor, nas quais elas também estão envolvidas de certo modo. Queria que eles soubessem o que fiz e faço entre um domingo e outro enquanto orava nominalmente por eles, estudava as Escrituras para traduzi-las na linguagem e nas circunstâncias da vida deles e conduzia-os em atos de adoração que dessem profundidade às suas vidas. Queria encontrar meios para estabelecer uma comunidade que se estendesse por todos os dias da semana em todo o local de trabalho e em toda família, onde o evangelho se infiltrasse poderosamente pelas horas e dias da semana. Enfim, queria que experimentassem minha invisibilidade, tornando-os assim visíveis para a glória de Deus.
Toda semana o pastor faz uma jornada bastante curta, mas necessária, do púlpito para o pátio do templo. No púlpito tudo estava bem organizado e equilibrado: as orações, o louvor, a pregação, atos visando criar um encontro com um Deus pessoal. Então, o pastor levanta os braços e impetra a bênção final, testemunhando as bênçãos contínuas durante a semana. Depois, dirige-se ao pátio para se encontrar individualmente com as pessoas. Lá, tudo é bem diferente. O povo, tendo recebido a oração final, faz uma reentrada desordenada em um mundo repleto de casamentos problemáticos, cidades caóticas, tédio da meia-idade, confusões de adolescentes, aflições emocionais, preocupações financeiras. O mesmo pastor que acabou de lidar de forma confiante com as Escrituras de Deus toca mãos tensas pela ansiedade e preocupações diversas do povo de Deus. No pátio, o pastor se encontra, subitamente, em um mundo que, embora diste apenas alguns passos do santuário, não é de adoração calma, não carrega confiança unânime, não é obediente em amor. A gora não se reconhece mais a salvação de forma inequívoca e aberta.
No santuário a palavra de Deus organizou a vida na hora do culto. No pátio, os pecados da congregação começam a preencher a agenda para uma semana de visitas, aconselhamentos, orientação e consolo. A transição, às vezes, é abrupta, violenta e difícil. O mesmo que levantou suas mãos em pungente adoração é aquele que aponta o dedo e acusa sem piedade. Contudo, o pastor precisa compreender que cada detalhe da vida de cada pessoa faz parte de uma história mais ampla, maior: a história da salvação. Sem este entendimento, sua jornada, embora curta, do púlpito ao pátio, torna-se dolorosa demais.
O trabalho pastoral é aquele que deve pegar a religião pela mão e a levar á vida cotidiana, apresentado-a aos amigos, vizinhos e colegas. É o trabalho que insiste em levá-la aonde ela tem de se misturar com a multidão. Quando não se dá a devida atenção ao trabalho pastoral, a mensagem tende, em certos ambientes, a se transformar em cerimônias de ostentação e, em outros casos, em casulos de emoções pessoais. Daí, ser necessário combinar dois aspectos primordiais do ministério: primeiro, apresentar a palavra eterna e a vontade de Deus e, segundo, encarnar a mensagem no meio do cotidiano local e das pessoas. Se qualquer um desses dois aspectos for desprezado, o ministério será empobrecido.
O pastorado começa no púlpito, no batismo, na eucaristia, no altar, no culto. Prossegue no quarto de hospital, na sala de visitas, no gabinete de aconselhamento, nas reuniões de festividades, nos grupos pequenos. O pastor que lidera o povo no culto é companheiro do mesmo povo no período que se estende entre os atos de adoração comunitária. Durante a semana, o pastor tem como tarefa estender as implicações do evangelho da graça de Deus na vida das pessoas, enquanto elas trabalham, amam, sofrem, entristecem-se, brincam, aprendem e crescem em tempos de crise ou bonança. Enfim, ele é aquele que se veste para dirigir a adoração aos domingos com sua vestimenta apropriada à ocasião, mas, fundamentalmente, utiliza-se de roupas comuns na intrincada e exuberante existência humana entre domingos.
Todo trabalho do pastor ocorre dentro do cenário da igreja: a comunidade da fé. Ele não deve ser o conselheiro de apenas alguns indivíduos, nem um preletor impessoal que só se dirige a multidões. Ele sim é colocado dentro de uma comunidade com a tarefa de edificá-la. A partir daí, sugestões são apresentadas para que passe a fazer outra coisa. Vou explicar.
A igreja, a comunidade da fé, é uma comunidade altamente especializada. Seu caráter é único. Como escreveu Karl Barth: “A comunidade cristã é uma colônia estranha por sua natureza e existência, para os quais não existem analogias no mundo que a cerca”. A igreja não é uma organização que permanece sempre pronta para atender as necessidades de todas as pessoas, à semelhança das associações seculares. Sua existência provém de Deus e ela vive para a glória de Deus, na medida em que se relaciona com Ele em obediência e amor. Contudo, as tentativas, até bem intencionadas, de desviar o foco são inúmeras: os profissionais desejam usá-la como mercado para seus produtos, organizações políticas planejam aliarem-se a ela, burocratas eclesiásticos visam fortalecer seus cargos por meio dela, programas de assistência social querem arrecadar fundos a partir dela, dentre outras. É atribuição do pastor compreender com clareza e firmeza sua própria função, de modo que sejam capazes de discernir entre o que Deus determinou que eles fizessem na igreja e o que os outros lhes pedem para fazer. Além disso, ter a presença de espírito para dizer “sim” e “não” no momento adequado. A edificação da comunidade não consiste em fazer “muitas coisas”, mas em fazer a coisa certa (Lc 10.42).
Quanto à sobrevivência, crescimento e sustento de uma comunidade do povo de Deus, tarefa designada aos pastores, o modelo é o servo. Figuras carismáticas são levantadas para desempenhar ministérios especiais, mas são inadequadas como exemplos de prática pastoral. Os pastores precisam escolher o estilo de servo se quiserem crescer e amadurecer em seus ministérios. Há de se repudiar como exemplo os que buscam a promoção e o fascínio. Jesus mesmo enfrentou uma árdua luta com seus discípulos nesta questão, já que procuraram o lugar de honra. Jesus, porém, interrompeu a argumentação deles com as seguintes palavras: “Mas entre vós não é assim; ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo” (Mc 10.42-45).
A função do servo se completou em Jesus. Desde seu nascimento até sua cruel morte, tudo nEle falava de serviço: tocou leprosos, lavou os pés dos discípulos, fez amizade com as crianças, encorajou mulheres, submeteu-se à crucificação. Se Jesus é o nosso modelo de liderança, os pastores não têm como se esquivarem de servir. Como Jesus, não enfrentam em alta voz os que preferem injuriá-los, nem argumentam com eles. Prosseguem em seu trabalho com grande bondade e resignação. Não destrói a cana quebrada, o desprezado da sociedade. Não coage os que parecem fáceis de manipular. Servem a todos, mesmo aos mais fracos e inúteis. Não ameaçam. Colocam-se em posição inferior, ou ao lado dos outros. São desconhecidos, entretanto, bem conhecidos. Castigados, porém não mortos. Entristecidos, mas sempre alegres. Pobres, mas enriquecendo a muitos. Nada tendo, mas possuindo tudo...
sábado, 17 de agosto de 2013
O PASTOR INVISÍVEL
Ouvi-o esta semana. Soou-me como um pequeno gracejo que me provocou riso: “Os pastores são invisíveis seis dias por semana e incompreensíveis no sétimo”. Não sei quanto à parte do incompreensível, mas o fato é que, de fato, os pastores são invisíveis seis dias por semana. Geralmente o único momento em que as pessoas da igreja nos veem em ação é quando dirigimos os cultos. Existem algumas outras ocasiões em que realizamos nosso trabalho em público: funerais, casamentos, formaturas. Contudo, quando aconselhamos no gabinete, só a pessoa fica sabendo. Quando visitamos os enfermos, só o doente e sua família ficam sabendo. Quando escrevemos uma carta, só a pessoa que recebe é que fica sabendo. Quando oramos, só Deus sabe. A maior parte das pessoas que pastoreamos tem muita visibilidade no seu trabalho: os professores na sala de aula, homens e mulheres em seus escritórios, policiais em sua corporação, médicos e enfermeiros nos hospitais, funcionários públicos em suas repartições. Não é assim com os pastores. Quando não estamos no santuário, as pessoas a quem pastoreamos nos veem apenas de forma esporádica. Boa parte do nosso trabalho mais importante é realizado nos bastidores. O que as pessoas veem no domingo é só a ponta do iceberg.
Gostaria de encontrar meios que transmitissem um pouco das invisibilidades que mantém juntas a vida do pastor e igreja, como povo de Deus, quando não estivéssemos visivelmente juntos. Queria, tanto quanto possível, que as pessoas de minha igreja tivessem acesso às “invisibilidades” da minha vida de pastor, nas quais elas também estão envolvidas de certo modo. Queria que eles soubessem o que fiz e faço entre um domingo e outro enquanto orava nominalmente por eles, estudava as Escrituras para traduzi-las na linguagem e nas circunstâncias da vida deles e conduzia-os em atos de adoração que dessem profundidade às suas vidas. Queria encontrar meios para estabelecer uma comunidade que se estendesse por todos os dias da semana em todo o local de trabalho e em toda família, onde o evangelho se infiltrasse poderosamente pelas horas e dias da semana. Enfim, queria que experimentassem minha invisibilidade, tornando-os assim visíveis para a glória de Deus.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
AS PRIORIDADES DA FAMÍLIA
A família é um projeto de Deus. Foi a primeira instituição divina. E foi criada para a glória de Deus e nossa felicidade. Para que a família experimente esse elevado propósito, necessário se faz que observemos algumas prioridades.
Em primeiro lugar, Deus precisa vir antes das pessoas (v 1).
Devemos amar a Deus com toda a nossa alma e de toda a nossa força, já nos ensinou Jesus. Devemos buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça. Para ser um discípulo de Jesus é preciso estar disposto a deixar pai e mãe e amá-lo mais do que qualquer outra pessoa, por mais achegada que seja a nós. Deus ocupa o primeiro lugar em nossa vida, ou então, ainda não sabemos o que é segui-lo. O que é importante destacar é que, quanto mais amamos a Deus, mais amamos nossa família e mais fortes ficam nossos relacionamentos interpessoais. A nossa relação com Deus cimenta os demais relacionamentos, colocando-os dentro de uma correta perspectiva.
Em segundo lugar, o cônjuge precisa vir antes dos filhos (v 3).
Pecam contra o cônjuge e contra os filhos aqueles que colocam os filhos em primeiro plano e o cônjuge em segundo plano. Os cônjuges tornam-se “uma só carne”, indicando sua união, relação e grau de importância na família. Depois do Senhor, o cônjuge é a pessoa mais importante em sua casa. O maior presente que podemos dar aos nossos filhos é amar, com desvelo, o nosso cônjuge. A maior necessidade dos filhos é ver o exemplo dos pais. Não há família saudável onde os relacionamentos estão fora dos trilhos. Investimos nos filhos, quando investimos em nosso casamento. Cuidamos dos filhos, quando priorizamos nosso cônjuge.
Em terceiro lugar, os filhos precisam vir antes dos amigos (v 3 b).
Precisamos ter discernimento para colocarmos as coisas em ordem de prioridade. Nossos amigos são importantes, mas nossos filhos são mais importantes. Aqueles que não cuidam da sua própria família estão em total descompasso com o projeto de Deus. Não podemos sacrificar nosso relacionamento com os filhos para dar mais atenção aos nossos amigos. Não mais vivemos uma vida de solteiro. Agora temos novas responsabilidades que requerem nosso cuidado e atenção. Nenhum sucesso vale a pena quando o preço a pagar é o sacrifício dos nossos filhos. Os pais precisam entender que seus filhos são prioridade. Precisam investir neles o melhor do seu tempo e o melhor de seus recursos. Precisam criá-los na admoestação e na disciplina do Senhor. Não podem procá-los à ira para quem não fiquem desanimados (Cl 3:21).
Em quarto lugar, as pessoas devem vir antes das coisas.
Vivemos numa sociedade materialista e consumista. As prioridades estão invertidas. As pessoas se esquecem de Deus, amam as coisas e usam as pessoas. Devemos, ao contrário, adorar a Deus, amar a pessoas e usar as coisas. Quando colocamos coisas no lugar de pessoas tornamo-nos insensíveis e apartamo-nos do projeto de Deus. Há pessoas que, infelizmente, têm mais cuidado com o carro do que com os membros da família. São mais zelosos com seus objetos pessoais do que com os relacionamentos dentro de casa. Amam mais os bens materiais do que os membros da família.
Em quinto lugar, o reino de Deus precisa vir antes dos nossos projetos pessoais (v 5).
Por diversas vezes, Jerusalém simboliza ora a igreja de Jesus, ora o reino de Deus nas Escrituras. Uma família feliz tem como propósito fundamental a glória de Deus e a construção de seu reino na terra. Temos visto muitos crentes dando para a Deus a sobra dos seus bens, de seus talentos e do seu tempo. São pessoas que só se preocupam com as coisas terrenas. Correm atrás de seus próprios interesses enquanto a obra de Deus fica relegada a um segundo plano. Essas mesmas pessoas, nas palavras do profeta Ageu, semeiam muito e colhem pouco; vestem-se, mas não se aquecem; comem, mas não se satisfazem; e o salário que recebem, colocam-no num saco furado. O pouco que trazem, Deus o assopra, porque não aceita sobras, uma vez que requer primícias. Precisamos buscar em primeiro lugar o reino de Deus. Precisamos investir as primícias da nossa renda na promoção do reino de Deus. Precisamos investir em causas de conseqüências eternas. Nossa felicidade pessoal e familiar alcançará sua plena realização, quando essas prioridades estiverem alinhadas em nossa vida!
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
A REVERÊNCIA PELA VIDA
Quanto tempo se leva para cortar uma árvore? Uns poucos minutos e tudo está terminado. Mas, para se sentar à sua sombra, muito tempo terá de passar. Terá de haver uma longa espera, e paciência. É sempre assim. Os caminhos da morte e destruição são mais rápidos. Por eles andam os que têm pressa. Já os caminhos da vida são vagarosos. Odiar o inimigo é muito fácil. Mas transformá-lo num amigo é coisa difícil que requer muita coragem. Acontece que creio em Deus, e Deus é vida generosa e mansa, presente em tudo que vive. Daí, podemos olhar para os fragmentos de bondade, quando todos olham para as evidências da maldade. Enganamo-nos confundindo as pessoas os seus atos. Ninguém é idêntico àquilo que faz. É isso que nos permite odiar o pecado e amar o pecador. Meu pai, chorando, com minha confissão nas mãos, deve ter odiado as coisas indignas que fiz. Mas ele me amou como nunca... Como no filho pródigo, o sofrimento prepara a alma para a visão de coisas novas. Sofrendo, os olhos ficam diferentes. E, coisa interessante: quanto mais próximos da humilhação nos encontramos, tanto mais perto de Deus nos sentimos. Como se fosse ali, onde a vida aparece desarmada e indefesa, nada tendo em suas mãos além do desejo de prosseguir, que ela viceja mais bela. Aliás, a vida para ser bela, deve estar cercada de Verdade, de bondade, de liberdade. Estas são coisas pelas quais vale a pena viver e morrer.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
POR QUE ME IMPORTAR COM A IGREJA?
Na confusa e apressada sociedade contemporânea, a preocupação com a igreja tornou-se um artigo de luxo. Não é raro observar uma grande contingência de pessoas que se importam com o trabalho, dinheiro, filhos, carreira, emprego, salário, família, estudos, dentre outras coisas mais. Não me compreendam mal, não estou querendo dizer que é errado se importar com estas coisas. Todas as pessoas se importam. A razão de minha preocupação é a ausência da importância que a igreja tem na vida de muitos que se dizem cristãos. A questão, portanto, é: por que eu não me importo com a igreja como eu me importo com todas as outras coisas de minha vida? Por que, para muitos, a preocupação e a importância da igreja é tão marginal? Mas, enfim, por que se importar com a igreja? Primeiro, porque é o propósito fundamental de Deus. O projeto de Deus sempre foi formar um povo que seja seu, para servi-Lo e adorá-Lo. A igreja é o sonho fundamental de Deus cumprido em Jesus Cristo. Ele se deu pela sua igreja, ressuscitou por ela e voltará para ela. Por que não deveríamos nos importar com aquilo que mais importa a Deus? Segundo, devemos nos importar com a igreja porque ela é a materialização do amor de Deus na terra. A igreja é o “Corpo de Cristo”. Somos os braços, as mãos, os pés, a boca de Deus na terra. É na igreja que o perdido é salvo, o sujo é limpo, a caído é levantado, o ferido é curado, o desanimado é fortalecido, o faminto é alimentado, o nu é vestido, o forasteiro é acolhido. A igreja é a face amorosa de Deus perante o mundo. Será, então, que não deveríamos nos importar mais com ela? Terceiro, devemos nos importar mais com a igreja porque ela nos fornece o verdadeiro alimento. É na igreja que estão “os tronos de justiça” (Sl 122.4), a luz da palavra de Deus. Ela é o nosso verdadeiro alimento. É ela quem nos mantém de pé quando todas as seguranças terrenas se esvaem. Quando o diabo ofereceu o pão material a Jesus no deserto Ele o recusou. Ele tinha outro alimento mais sublime e valoroso: a palavra de Deus. Sempre que deixamos de ir à igreja ou nos importamos pouco com ela, descobrimos que somos nós quem sofre. Nossa fé fraqueja e a casca rabugenta de falta de amor cresce ao nosso redor. Em vez de calorosos, tornamo-nos mais frios. Em vez de melhores, tornamo-nos piores.
Nós, seres humanos, causamos com freqüência grande dor para Deus. No entanto, Deus permanece apaixonadamente envolvido conosco. Não deveria ter eu essa mesma atitude para com a igreja que me cerca?
terça-feira, 4 de setembro de 2012
A Igreja e a Política
A Igreja e a Política militam em esferas diferentes, mas nem por isso antagônicas. Suas naturezas são distintas, isto é, a Igreja adora a Cristo, proclamando o seu evangelho através de palavras e atitudes, enquanto a Política legisla e administra a polis (daí o nome política) para o bem-estar de seus cidadãos. Martin Luther King Jr. disse que “a igreja não é a ferramenta do Estado, mas a sua consciência”, demonstrando bem as duas esferas de ação. Contudo, nós cristãos, devemos ser bons cidadãos da polis do homem e da polis de Deus ou, nas palavras de Agostinho, da Cidade dos Homens e da Cidade de Deus.
Aproximam-se as eleições. Como em todo país democrático o voto é um direito e uma imensa responsabilidade. O voto não tem preço, mas tem conseqüências. Sua má utilização perpetua a esteira de corrupção e jogos de interesses pessoais. Temos a responsabilidade como cidadãos da polis, de nortear nossas escolhas pelo padrão ético das Escrituras Sagradas com liberdade de opção, mas providos sempre de nossa regra de fé e prática: a Palavra de Deus. Nossas escolhas devem se fundamentar, portanto, na natureza da política e na natureza do evangelho. Como natureza da política está o atendimento aos interesses da população; a administração de acordo com a lei; a promoção do crescimento social, educacional e econômico; o cuidado e ampliação da infra-estrutura; o cultivo da cultura nacional, saúde e lazer; dentre outras. Como natureza do evangelho está o amor, a graça, a compaixão, a ética, o perdão, a santificação, a misericórdia, a honestidade e integridade, a mansidão, a humildade, dentre outras. Cuidemos, portanto, de não desprezar um precioso instrumento, o voto, buscando sempre honrar a boa política e o sublime evangelho de Jesus Cristo, através do qual fomos comprados por alto preço.
terça-feira, 3 de julho de 2012
SOCOS,CHUTES E BOFETADAS NA IMAGEM DE DEUS
A pergunta a ser feita a fim de se descobrir o que há de errado com práticas como o MMA, por exemplo, é: o que é o homem e qual o propósito de sua existência? Uma antropologia correta à luz das Escrituras nos auxiliará a respondê-la. A Bíblia declara categoricamente que o homem foi criado por Deus a sua imagem e semelhança (Gênesis 1:26,27). Isso significa que ele possui em seu ser atributos inerentes ao seu Criador, como: justiça, santidade e amor. Ele foi criado para “espelhar” e “representar” Deus diante de toda a criação. Seu papel é glorificar seu Criador, manifestando os atributos divinos perante toda criação. Mas algo terrível ocorreu: a imagem de Deus foi pervertida na Queda. Digo pervertida, não, perdida. Já que a imagem de Deus foi pervertida pela queda do homem no pecado, ela precisa ser renovada. Essa renovação ou restauração da imagem de Deus no homem é o que acontece no processo de redenção por meio de Jesus Cristo. Através de Jesus, o homem, que utilizava suas faculdades que o fazem semelhante a Deus de modo errado, é agora capacitado novamente a utilizá-los de modo correto. Esta restauração começa com a REGENERAÇÃO. A regeneração é um ato do Espírito Santo de Deus, através da pregação e do ensino da Palavra, pelo qual Ele primeiramente coloca a pessoa em união com Cristo e muda as inclinações de seu coração de tal modo que ela, que estava espiritualmente morta, se torna espiritualmente viva. A partir de agora, ela está pronta e disposta a crer no evangelho e servir a Cristo (João 1:12,13 e João 3:3). Esta restauração continua na SANTIFICAÇÃO. A santificação é o processo no qual há uma renovação progressiva da imagem de Deus no homem, corrompida pela queda (2Coríntios 7:1). Mas, o que isto significa na prática? A renovação ou restauração da imagem de Deus no homem significa que o homem é novamente capacitado a agir apropriadamente em sua tríplice relação, ou seja: sua relação com Deus, com seu próximo e com a criação. Primeiro, o homem é capacitado a estar apropriadamente voltado para Deus. Isto envolve amar a Deus de todo o coração, com toda a sua alma, com toda a sua mente e de toda a sua força (Marcos 12:30). Envolve adorar ao Deus verdadeiro e utilizar todas as suas faculdades de forma que glorifiquem a Deus. Segundo, o homem é capacitado para voltar-se apropriadamente a seu próximo. Isto envolve amar os nossos semelhantes como a nós mesmos. Envolve fazer pelo próximo o que esperamos receber deles. Envolve perdoar as falhas do outro como Cristo nos perdoou. Envolve interessar-se pela justiça social, pelos direitos humanos, pelas necessidades dos pobres e dos desamparados. Envolve servir ao próximo e não servir-se do próximo. Envolve até amar os inimigos (Mateus 5:44,45). Terceiro, o homem é capacitado para governar e cuidar da criação de Deus. Isto envolve dominar a natureza de forma responsável. Envolve explorar os recursos naturais de forma sustentável. Envolve preservar o meio ambiente contra a exploração gananciosa e predatória. Envolve desenvolver uma cultura cristã (artes, música, literatura, ciência, esporte, lazer, etc.) que espelhe a glória de Deus. Envolve desenvolver práticas agrícolas e científicas adequadas a produção de alimentos resguardando as reservas naturais. A renovação da imagem de Deus no homem não se refere apenas à piedade religiosa, mas é uma visão geral da vida, ou seja, uma cosmovisão humana: o relacionamento com Deus, com o próximo e com toda a criação de Deus. A grande e preciosa promessa é que todas as pessoas que foram atingidas pelo chamado de Cristo serão iguais a Cristo. Serão sua imagem como irmãos do Primogênito de Deus. Este é o destino último do discípulo: ser conforme a imagem de Cristo (Romanos 8.29). Nós agora, com a imagem renovada à imagem de Cristo, só podemos ser como Ele é. Agora que somos feitos imagem de Cristo, podemos viver segundo o seu exemplo. Esta renovação à imagem de Cristo é descrita de muitas formas no Novo Testamento. Ela é descrita como “despojar-se da velha natureza” e “revestir-se da nova natureza” (Colossenses 3:9,10), como “renovação da mente” (Romanos 12:2), como manifestação do “fruto do Espírito Santo” (Gálatas 5:16,22), como “assemelhar-se a imagem de Cristo” (Romanos 8:29, 2Coríntios 3:18), como “revestir-nos de Cristo” (Romanos 13:14). Essa renovação da imagem não é completada nesta vida. É, porém, um processo que continua durante toda a vida. “Os cristãos não são apenas pessoas boas, mas essencialmente pessoas novas”, escreveu C.S.Lewis. Pergunto, então: Como um homem com sua imagem renovada à imagem de Cristo e agora apto a desenvolver apropriadamente sua correta relação com Deus, com o próximo e com a criação pode compactuar e defender aquilo pelo qual o próprio Cristo o libertou? Como pode um homem regenerado e renovado por Cristo se alinhar com a escalada de violência que a sociedade publica e muitos aplaudem, no qual a dignidade, valorização e preservação da vida são postos em risco? Como pode um homem recriado à imagem de Cristo distribuir socos, chutes e bofetadas na imagem de Deus refletida na face do outro? Não seria isso uma contradição? A não ser que ele ainda não tenha sua imagem renovada...
segunda-feira, 25 de junho de 2012
OS CRISTÃOS E O MMA
Alguns dias atrás me questionaram sobre qual deveria ser a relação entre os cristãos e esta nova modalidade de esporte/luta que se tornou uma febre, principalmente entre os adeptos da malhação nas academias, o MMA. Primeiramente gostaria de esclarecer que o MMA, e algumas outras manifestações esportivas, culturais e até artísticas são conseqüências diretas da descristianização da sociedade ocidental. Falo descristianização para não utilizar o termo anticristianismo, que seria uma expressão bem mais forte. Para explicar tal afirmação gostaria de retroceder na história.
Nos áureos tempos do Império Romano em toda a sua opulência sob o domínio dos Césares, existia uma forma de diversão que promovia a euforia mórbida de toda a população de Roma: o esporte/luta entre gladiadores. Promovida pelo próprio Estado, o duelo fazia parte de uma estratégia para manter o povo subserviente a Roma e alheio às atrocidades cometidas pelo avanço do império, além de alimentar o marketing da díade pão e circo. Os gladiadores eram guerreiros treinados nas artes da luta, tendo em sua maioria um físico descomunal. Gozavam do prestígio das autoridades e do povo comum, sendo patrocinados, em sua grande maioria, pelo próprio império ou por cidadãos pertencentes às classes mais abastadas da sociedade da época. Equipavam-se em combate com seus escudos, espadas e lanças, arrojando-se um contra o outro, às vezes até a morte. Nisto consistia a eufórica e insana diversão da plebe que lotava os imensos pavilhões do Coliseu Romano. Quanto maior a violência durante a luta, maior a participação popular. Contudo, com o advento do cristianismo e seu poder de salgar e iluminar a sociedade pagã e amoral da época, os duelos começaram a escassear. A pregação do evangelho e o testemunho de seus mártires que sucumbiram aos montes nas mãos destes mesmos guerreiros contribuíram para despertar a consciência dos incautos. Quando, enfim, o cristianismo tornou-se a religião oficial do império no século IV de nossa era, o esporte/luta dos gladiadores foi abolido por completo. Seu palco maior, o Coliseu, foi abandonado como um memorial trágico de um tempo de crueldade e perversidade dos homens. E assim, permanece até o dia de hoje.
Como afirmei anteriormente, nossa sociedade caminha rumo ao anticristianismo de forma rápida, daí o retorno de tais práticas que o cristianismo outrora baniu para sempre. Mas, com um agravante: seus defensores encontram-se também entre os cristãos. Afinal, qual seria a diferença de entrar em um estádio lotado como o Mineirinho para celebrar, aplaudir e estimular um duelo esporte/luta que contém os mesmos ingredientes em sua natureza de crueldade e infortúnio da agressão física até o sangue, de entrar no Coliseu Romano para celebrar, aplaudir e estimular as mesmas crueldades e infortúnios da agressão física até a morte? Há sim uma triste e única diferença: o Coliseu hoje está em ruínas e o MMA no auge da efervescência.
terça-feira, 19 de junho de 2012
HISTÓRIA E FÉ
A minha viagem a Israel, dentre outras reflexões, levou-me a compreender uma questão que, para muitos, têm suscitado dúvidas. A questão é: “De que modo a fé pode realmente ser fé, se ela for estabelecida pelas descobertas históricas?”. Em outras palavras, poderá a fé ser autêntica se ela assentar-se sobre a verificação histórica, já que a fé é a entrega do homem a Deus como um todo? Primeiramente, precisamos afirmar que a história não conduz necessariamente o homem a Deus, mesmo sendo esta história a história da operação de Deus no mundo. Um estudo preciso pode oferecer assentimento intelectual às descobertas sem necessariamente obter com isso a fé. A teologia e a história são empreitadas intelectuais, a fé é algo além. O historiador pode andar pelas ruas de Jerusalém nas estações da via crucis e visitar o túmulo vazio, verificando assim a historicidade dos relatos bíblicos sobre o sofrimento e a ressurreição de Cristo, e ainda assim rir-se de tais fatos. “A fé é um segundo passo”, nas palavras de Ladd. Eu diria, porém, que a fé está a um passo além da história. Com isso, quero dizer que, embora a história não prove a realidade de minha fé, ela é essencial para a verdadeira fé – pelo menos ao homem que se preocupa com a história. Funciona mais ou menos assim: a maior parte das pessoas vem para fé em resposta à Palavra de Deus proclamada sem testar criticamente a historicidade dos eventos que a Palavra proclama. Mas se ele concluir que os eventos pelos quais ele creu não são históricos, é difícil ver de que modo sua fé poderá suster-se. Ou seja, nenhuma fé cega é fé real. A fé não pode ser um salto no escuro, como acreditava Kierkegaard. Mas, por outro lado, se ele concluir que os mesmos eventos alegados são históricos, sua fé se sustenta e se robustece. A decisão de aceitar Jesus Cristo como Senhor não pode ser feita sem a evidência histórica acerca de Jesus. Se houver uma decisão sem qualquer evidência histórica, esta não poderia ser a decisão a respeito do Jesus da Bíblia, mas somente a respeito de uma ideologia ou de um ideal. A história não produz a fé, mas prova um fundamento adequado para a fé.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
A CAMPANHA DO MEDO
Estamos às portas de mais uma campanha política. Todos nós, cidadãos brasileiros, utilizaremos do nosso direito democrático de escolher um candidato a um cargo público. Esta escolha deve ser determinada por alguns fatores como: honestidade, competência, caráter, ética, passado limpo, capacidade intelectual e moral, compaixão pelos menos favorecidos e experiência pública. Mas, o mais importante é ser vocacionado para a política, seja ele evangélico ou não. O que o Brasil precisa são de políticos por vocação e não de políticos por profissão. O vocacionado é aquele que se realiza no “fazer”. Ele ama o que faz e faz com amor e paixão. O político profissional, ao contrário, é movido pelo benefício que dele se deriva. Seu real interesse é o ganho pessoal que obtém. Ele não ama o “fazer”, mas o que este fazer pode lhe render.
À medida que o dia se aproxima algumas alas mais radicais, tendo a caça ao voto como seu propósito máximo, lançarão mão de métodos menos ortodoxos. O método é antigo. Já foi utilizado em campanhas anteriores para governadores e presidentes. Consiste em instalar o medo, com base no misticismo pagão. Vocês devem se lembrar que, na última campanha presidencial, tivemos que conviver com diversos panfletos e propagandas que ligavam o antigo presidente a Satanás, e que, se eleito, fecharia todas as igrejas evangélicas. Fato que não ocorreu por não ter fundamento.
A história se repete. Os jargões eleitoreiros também. Mas penso que, como cristãos evangélicos, temos a capacidade de discernir a real intenção dos fatos. Jesus já nos alertou: “Sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mateus 10.16). Portanto, tenha prudência ao lidar com propagandas que tentem influenciar o eleitor pela inclinação religiosa do candidato, satanizando os demais. Não tome partido com base apenas nessa informação, pois, neste período eleitoral, o que está por detrás dela certamente é o voto dos mais incautos.
Como pastor, o meu compromisso é com o evangelho, mas também com a ética, cidadania e, acima de tudo, com o ensino bíblico saudável. É por isso que me sinto na obrigação de levantar algumas reflexões, a fim de que a sua consciência não seja alterada pelo terror. Lembre-se, o Supremo Governante está assentado no trono e o seu reinado nunca terá fim!
quarta-feira, 30 de maio de 2012
A BÍBLIA QUE EU NUNCA CONHECI - Uma viagem a Israel
Vista apenas pelos olhos de um curioso turista de primeira viagem como eu, a terra da Bíblia já é um domínio estonteante de contrastes espetaculares. Foi o próprio Deus que disse: “levantei a minha mão para achar uma terra que tinha previsto para eles, a qual mana leite e mel, e é a glória de todas as terras” (Ez 20.6). Colocada compactamente em um estreito território de cerca de 89Km de largura e 240Km de comprimento, tem montanhas cujos picos são nevados durante o ano todo e uma depressão tão profunda que chega a ser o lugar mais baixo da terra. A oeste encontra-se o belíssimo litoral do Mediterrâneo, e a leste o deserto da Arábia, tendo as montanhas do Golan como divisa da Síria e do Líbano. Os vales férteis da Galiléia contrastam com o território árido do deserto da Judéia. Não existe outro lugar igual na terra. Tão compacto que cabe num espaço que pode ser atravessado de carro em poucas horas, contudo, foi o cenário dos eventos mais significativos da operação de Deus no mundo. Viajar através da Terra Santa, como fiz em maio deste ano, de norte a sul e de leste a oeste, pode descortinar pontos interessantes na percepção dos propósitos de Deus registrados nas Escrituras Sagradas. Ao percorrer os estreitos caminhos da velha Jerusalém, ou as trilhas arenosas de Massada e do deserto da Judéia, ou a exuberância dos jardins e tamareiras às margens do Mar da Galiléia, enxergamos concretamente a verdade de Deus pretendida para todas as nações. São novos horizontes que se abrem diante de nós, sobretudo abrindo uma janela cheia de luz para uma releitura da Bíblia que eu nunca conheci.
Penso que a terra da Bíblia serve a um propósito que há de durar mais do que a sua própria existência física. Como um grande palco para o desenrolar do drama dos eventos críticos da redenção, culminando no túmulo vazio em Jerusalém, essa terra serviu bem a Deus e ao homem. Se vista corretamente, pode reforçar, iluminar e dramatizar as verdades eternas da Bíblia. Pode inspirar um amor ainda mais profundo à Palavra de Deus e aperfeiçoar o entendimento do plano eterno da redenção do homem em Jesus Cristo.
terça-feira, 3 de abril de 2012
QUANDO TORNAMOS AS BÊNÇÃOS DE DEUS EM ALGO COMUM - Malaquias 1:1,2
Malaquias, que significa “meu mensageiro”, foi o último profeta de Deus do VT. Ele foi boca de Deus para um remanescente ingrato, rebelde e desanimado, apesar das bênçãos grandiosas de Deus: reconstrução do templo com Esdras, reconstrução dos muros com Neemias e retorno a Jerusalém após o exílio. Eles perderam a capacidade de se maravilhar diante das intervenções de Deus, cultivando um espírito acomodado e cínico. Os seis questionamentos (queixas) do povo para com Deus demonstram este espírito. Quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, incorremos em graves distorções da fé. Vejamos.
Primeiro, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, desprezamos o seu inigualável amor (1:1,2). Deus relembra ao seu povo sua graciosa eleição, fruto de seu inigualável amor. Inigualável por ser incondicional. Deus ama aqueles que por natureza eram objetos de seu desagrado. Inigualável por ser invencível. Deus ama “até o fim” (Jo 31.1). Inigualável por ser sacrificial. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito. Mas, a despeito do grande amor de Deus, o povo nutria um sentimento de desprezo e ingratidão: “Em quê tem nos amado?”.
Segundo, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, oferecemos o pior (1:6-8). Deus esperava ser honrado, contudo, os sacerdotes e o povo ofereciam o pior. À semelhança de um pai ou de um senhor de escravos que recebiam a honra de seu filho ou de seus súditos, Deus esperava ser honrado pelo seu povo, mas obteve o desprezo pela qualidade de suas ofertas. Os animais ofertados eram cegos, coxos e enfermos, contrariando a lei. Eram ofertas indignas até para serem oferecidas a um governante terreno (v 8). E o mais lamentável dessa atitude é que poderiam oferecer o melhor, mas não o faziam (v 14). Para Deus, seria melhor fechar as portas do templo do que ofendê-lo com tais ofertas (v 10). Devemos refletir sobre como tem sido nosso culto oferecido a Deus... Será que Cristo tem de fato recebido a primazia? (Cl 1:18).
Terceiro, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, invejamos a prosperidade dos perversos (2:17). O povo estava se comportando como Asafe se comportou no passado (Sl 73:3). “Eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos”. A prosperidade dos povos ao redor era causa de inveja, queixas e murmurações contra Deus (3:15). Em outras palavras, diziam: “Deus é injusto!”. O povo não conseguia reconhecer aquilo que Asafe reconheceu: que a riqueza material é efêmera; que o fim deles pode ser trágico; que a verdadeira riqueza é Deus quem nos dá (“Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo”, disse Jesus); que a justiça verdadeira se manifesta em Cristo (3:1-6). Ele virá e julgará a terra com a espada de sua boca (v 1-3). Em sua segunda vinda, Ele exercerá seu julgamento final (4:1,2).
Quarto, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, usurpamos o que lhe é de direito (3:8,9). O pior ladrão é aquele que não se reconhece como tal. O questionamento: “Em que te roubamos?”, demonstra todo o cinismo do povo em não reconhecer a desobediência e a infidelidade coletiva (v 9): “Vós me roubais, a nação toda”. Eles estavam se apropriando daquilo que não lhes pertencia: o dízimo é do Senhor! Certa feita Jesus foi argüido sobre o imposto, ao que respondeu: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Isto é, o cristão foi chamado para ser fiel em todas as esferas de atuação. Quando valorizamos a Deus e sua rica intervenção em nossas vidas, agimos como Davi (1 Cr 29): (1) Reconhecemos que tudo vem das mãos de Deus; (2) E das mãos de Deus o devolvemos.
terça-feira, 27 de março de 2012
PERDI A ESPERANÇA
De fato, perdi as esperanças. Tranqüilizem-se. A perda de esperança pode ser uma manifestação de lucidez. Às vezes, é preciso perder a esperança para voltar a viver. É ter a coragem de reconhecer que o que está morto realmente morreu, e só existe uma coisa a ser feita: enterrar. É preciso que os mortos sejam enterrados para voltar a viver. Perdi a esperança: enterrei a política oficial. Essa dos partidos, dos comícios, das carreatas, das promessas, do “tudo isso te darei se votares em mim”, que iniciará em poucos dias. Daí, antes que se iniciem, fica aqui o meu protesto.
A política não é o jogo das verdades. Nela o que importa não é o ser, mas o que parece ser. Política hoje não se faz com verdade. Política hoje se faz com imagens. O negócio é o teatro. Aquele que representa melhor leva o prêmio. Aquele que engana melhor fica com o voto.
Política é caçada. Políticos são caçadores que espreitam sua presa em busca de voto. O voto é o caminho para o poder. E para isso utiliza-se de táticas e técnicas refinadas para abater a presa. Põem armadilhas apetitosas, armam iscas... Será que neste bando de caçadores há alguma exceção? Quero crer que sim.
Mas foi o Guimarães Rosa, mágico com as palavras, que me devolveu a alegria, quando escreveu: “O político pensa apenas em minutos, sou escritor e penso em eternidades...”. Em outras palavras, político é aquele que busca a ressurreição do poder, enquanto eu busco a ressurreição do homem. Acho que foi isso que ele quis dizer.
Tranqüilizem-se as minhas ovelhas. Não estou deprimido, apesar de tantos escândalos. Estou em paz comigo mesmo. Já enterrei o defunto. Posso dedicar-me às coisas que julgo merecedoras do meu amor e trabalho: o reino de Deus. Quando uma esperança se vai, outra nasce em seu lugar. Como capim que brota sob a primeira chuva, depois da devastação da queimada...
quinta-feira, 15 de março de 2012
O ESPAÇO DA IGREJA NO MUNDO
Ultimamente, tenho ouvido com certa freqüência declarações como estas: “Precisamos de mais espaço na mídia”, “Precisamos de mais representação no Congresso Nacional”, “Precisamos de mais espaço na administração pública”. Será que estes são os espaços que a igreja precisa conquistar no mundo? Será que, ao menos, ela necessita conquistar espaços?
A igreja de Jesus Cristo é o lugar no mundo onde se proclama e testemunha o senhorio de Jesus sobre o mundo todo. Logo, esse espaço da igreja não é algo que exista em função de si mesmo, mas algo que ultrapassa em muito seus próprios limites, não como uma sociedade cultual que tivesse que lutar por sua própria sobrevivência no mundo, mas como o lugar onde se testemunha a fundamentação de toda a realidade em Jesus Cristo.
A igreja é o lugar onde se testemunha e se leva a sério que em Cristo Deus reconciliou consigo o mundo, que Deus amou o mundo de tal maneira que por ele deu o seu Filho. O espaço da igreja, portanto, não existe para disputar uma parte do território do mundo, tão presente hoje em declarações de disputas por estes espaços, mas para testemunhar ao mundo que ele pode ser o que é: o mundo amado e reconciliado com Deus em Jesus Cristo. A igreja somente pode defender seu espaço próprio não lutando por ele, mas pela salvação do mundo. Do contrário, a igreja transforma-se em “sociedade religiosa” que luta em causa própria, deixando assim de ser igreja de Cristo no mundo. Dessa forma, a primeira incumbência daqueles que pertencem à igreja de Jesus Cristo não é ser algo para si mesmos, criar, por exemplo, uma organização religiosa ou mesmo viver uma vida piedosa, mas ser testemunhas de Cristo para o mundo.
Quero concluir, portanto, afirmando que quem quiser falar do espaço da igreja deve estar consciente de que esse espaço já nasceu rompido e superado por qualquer território que se queira “dominar” pelo testemunho da igreja a respeito de Jesus Cristo. Afinal, foi o próprio Cristo quem rompeu todas as fronteiras quando disse: “O campo é o mundo”.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
QUEM É VOCÊ NA MULTIDÃO
Todos nós estamos familiarizados com o equivocado ditado “A voz do povo é voz de Deus”. A própria história já deu mostras deste sofisma. A Alemanha já aclamou Hitler. A Itália já aplaudiu Mussolini. A Rússia já apoiou Stalin. Os chineses já endeusaram Mao Tse Tung. E vejam o triste desfecho: seis milhões de judeus mortos em campos de concentrações, toda uma população aniquilada pelo terror da guerra, assassinatos em massa para manter um regime totalitário e infame, cristãos perseguidos e mortos, igrejas incendiadas e dezenas e milhares de pessoas vítimas da fome em todo o país. A voz da multidão não é confiável. O próprio Jesus não confiava nas multidões (Jo 2:23-25).
Jesus estava a caminho de Jerusalém. É a sua última semana antes da cruz. Após ser ungido para a sepultura por Maria, dirige-se resolutamente a Jerusalém. Ele tem uma missão a cumprir, e nada o desviará dela. Em seu caminho, as multidões o acompanham. Ele já traz consigo um cortejo de seguidores, mas conhece aqueles que são seus. Eles seriam atraídos a Ele após a ressurreição (v 32).
É clara a intenção de João em destacar as multidões durante o seu percurso e sua entrada em Jerusalém (a palavra “multidão” ocorre 6 vezes neste relato: v 9, 12, 17, 18, 29 e 34). É também clara a sua intenção em destacar algumas classes de pessoas dentro da mesma multidão e a forma como elas se relacionavam com Jesus. Vejamos quais são elas:
A primeira classe de pessoas são aqueles que não compreenderam quem Jesus era nem a natureza de seu reinado (v 12,13 e 34). Jesus entra em Jerusalém e é clamado pela multidão. Eles esperavam um messias político. Alguém que organizaria um levante popular e político, a fim de libertar a nação do jugo romano. O rei finalmente chegara, e com ele toda a expectativa de um novo tempo livre do domínio de César. Como os discípulos de Emaús, eles esperavam que fosse Jesus quem iria redimir Israel (Lc 24:21). Mas estavam errados quanto a sua pessoa. No fundo, eles não sabiam quem Jesus era (v 34).
A segunda classe de pessoas que João destaca são aqueles que o buscavam apenas pelo milagre (v 18). Dentre a multidão, estavam aqueles que presenciaram o grande milagre da ressurreição de Lázaro (v 17). Através de seu testemunho, muitos saíram ao encontro de Cristo em busca do milagre. Esta classe de pessoas representa aqueles que desejam apenas o benefício, a cura, o livramento e a supressão se seus desejos e necessidades. São como os que buscaram a Jesus somente por causa do pão, após o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6:26).
A terceira classe de pessoas são aqueles que o buscavam por curiosidade (v 20,21). Os gregos (gentios) certamente ouviram falar de Jesus, de suas curas e de seu ensino transformador. Desejosos de conhecê-Lo foram até Filipe, que era da Galileu. Estavam curiosos sobre o homem que detinha um ensino tão original e um poder tão grande de atração nas pessoas. Certamente, há também muitos curiosos em todos os lugares, até na igreja. Não são poucos aqueles que desejam apenas aplacar a sua curiosidade com respeito a Cristo e a igreja.
A quarta classe de pessoas são aqueles que experimentaram a intervenção poderosa de Cristo, mas permaneceram incrédulos (v 37). A luz brilhou de forma intensa, mas não resplandeceu nos corações empedernidos (v 35, 36). Embora muitos tivessem presenciado sinais e maravilhas, não creram em Cristo para sua salvação. De modo geral, não é o milagre que produz a fé, mas a fé é que produz o milagre. Judas experimentou como testemunha ocular todos os milagres espantosos e pronunciamentos maravilhosos de Jesus, embora permanecesse com o coração endurecido.
A quinta classe de pessoas descrita por João são aqueles que creram em Jesus, mas ocultaram a sua fé (v 42,43). Várias autoridades do povo e pessoas importantes creram em Jesus, mas por causa dos cuidados e respeitos humanos mantiveram-se em silêncio. Esses são aqueles que ocultam a sua fé por receio de perder a influência, a posição, o status, a “glória dos homens”. São representados por aqueles que amam mais o que conquistaram do que Aquele que os conquistou. José de Arimatéia e Nicodemus eram um exemplo desse tipo de gente. João declara que José de Arimatéia era discípulo de Jesus, “ainda que ocultamente pelo medo dos judeus” (Jo 19:38). E o que dizer de Nicodemus? Foi ter com Jesus de noite, com medo de ser visto e ter a sua reputação maculada perante os religiosos de sua época (Jo 3:2).
Afinal, quem é você no meio da multidão? A qual classe de pessoas você pertence? Aqueles que pensam que Jesus foi apenas um grande líder revolucionário? Aqueles que o buscam apenas pelo benefício que Ele pode lhes conceder? Aqueles que, por curiosidade, pulam de um lado para o outro em busca de novidades? Aqueles que experimentaram sua doce presença, mas continuam andando na direção oposta? Aqueles que escondem a sua fé por receio de perder o que, enganadamente, pensam que conquistaram?
A sexta e última classe de pessoas são descritas pelo próprio Cristo (v 44-50): 1. São aquelas que crêem que Jesus é Deus e não um messias político (v 44,45). 2. São aquelas que crêem que Ele é a revelação final e perfeita da verdade de Deus (v 46). 3. São aquelas que ouvem e praticam a sua Palavra (v 47-50). São estes que serão destacados não pelos homens, mas por Deus; que serão honrados não por homens, mas por Deus; que receberão o prêmio não das mãos dos homens, mas das mãos de Deus, em meio à multidão.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
RESOLUÇÕES DE ANO NOVO
O início de uma vida nova, com mais dinheiro, saúde, qualidade de vida e felicidade parece uma realidade palpável para muita gente na noite da virada do ano. Enquanto os fogos pipocam o céu, várias promessas são feitas, acompanhadas de superstições que beiram a insanidade. Mas, poucas dessas promessas sobrevivem ao dia seguinte. A razão para isso vai desde a falta de perseverança até querer realmente o que se propõe. É necessária uma profunda reflexão sobre o que se almeja para não se apagar como os fogos de artifício da virada.
As resoluções mais confiáveis encontram-se na Palavra de Deus, pois ela é a vontade de Deus para o homem. Resolver fazer a vontade de Deus, certamente nos conduzirá a lugares seguros, prazerosos e, acima de tudo, mais próximos de Deus – que é a fonte de toda alegria e realização humana.
Neste primeiro dia do ano quero extrair de quatro personagens bíblicos quatro resoluções acertadas que tomaram e mudaram as suas vidas para sempre. Bem que poderiam ser as nossas a partir de hoje. Vejamos.
A primeira resolução foi tomada por um profeta: “Resolveu Daniel firmemente não se contaminar” (Dn 1:8), foi sua decisão. Diante de finos manjares oferecidos por um rei idólatra e tirano, ele resolveu não participar do banquete, preferindo uma dieta mais leve. Ele decidiu ser diferente para a glória de Deus. Eis a primeira resolução que tomo neste início de ano: EU RESOLVO BUSCAR UMA VIDA DE SANTIFICAÇÃO PARA A GLÓRIA DE DEUS. A santificação é a principal evidência do novo nascimento promovido pelo Espírito Santo. Ela é um processo que envolve duas partes: Deus e eu. É sinérgico na medida em que Cristo persevera em mim e eu me esforço para me tornar como Ele. Contudo, a santificação é um processo que dura a vida inteira, e sem ela ninguém verá a Deus.
A segunda resolução foi tomada por um rico cobrador de impostos: “Eu resolvo dar metade dos meus bens aos pobres” (Lc 19:8). Ao se oferecer para ficar em sua casa, Jesus conquistou o avarento e corrupto Zaquel. E quando somos conquistados por Cristo, abrimos mão de nossas conquistas pessoais, porquanto possuímos agora a pérola de maior valor. Foi isso que ele fez. Resolveu dar metade de seus bens aos pobres e restituiu quatro vezes mais àqueles os quais defraudou. Eis a segunda resolução de ano novo: EU RESOLVO SER MAIS GENEROSO COM OS MEUS DONS PARA A GLÓRIA DE DEUS. A generosidade é uma das principais marcas do cristão. É só dar uma olhada na igreja primitiva para vislumbrar a graça do oferecimento (Atos 2:42-47). A generosidade é o amor em ação. É o custeio daquilo que está no coração, à semelhança do samaritano que não apenas resgata o moribundo, mas custeia as suas despesas com o tratamento (Lc 11:35). A generosidade mede o nosso envolvimento com o Reino de Deus, nem mais, nem menos.
A terceira resolução provém de um rei: “E depois disso, resolveu Joás renovar a Casa do Senhor” (2Cr 24.4). Após um período de apostasia, lutas pelo poder e morte, Joás irrompe como um grande paladino para reconstruir o altar e o culto a Deus perante o povo. Eis a terceira resolução de ano novo: EU RESOLVO ME COMPROMETER MAIS COM A OBRA DO SENHOR. O profeta Ageu denunciou o descaso de uma nação para com o “templo”, enquanto concentravam-se em suas próprias casas, não muito diferente do que encontramos na sociedade hodierna. Ao contrário de Esdras, Neemias e Salomão que iniciaram pela Casa do Senhor, teimamos em iniciar pela nossa própria casa, enquanto a obra do Senhor padece de trabalhadores.
A última resolução advém de uma viúva estrangeira: “Rute estava de todo resolvida em ir com Noemi” (Rt 1:18). Mesmo não tendo nenhum vínculo legal com a sogra, já que o marido morrera e ela não tinha mais filhos, Rute resolveu se aliançar com ela em uma das mais belas declarações de amor e amizade narradas na Bíblia. Eis a minha última resolução de ano novo: EU RESOLVO ME COMPROMETER MAIS COM AS PESSOAS. Relacionar-me mais com elas. Procurar servi-las naquilo que estiver ao meu alcance. Dedicar-me um pouco mais aos outros e menos a mim mesmo, respirando e tentando sorver as palavras de um jovem pastor da Alemanha nazista sobre Jesus: “Jesus foi um homem para os outros”.
E que Deus me ajude para que estas resoluções não se apaguem como os fogos da virada...
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
O NATAL QUE EU NÃO CONHECI
A história do primeiro Natal
O Natal está às portas, e com ele um movimento esperado: presentes, enfeites, festas, cartões, árvores, Papai Noel, entre outros. Ao contrário do que a sociedade gostaria que crêssemos, o primeiro Natal contrasta com esta realidade. Por isso, ao se aproximar o Natal, convido-o a afastar-se da ilusão dos cartões e das vitrines, indo para a sua verdadeira história. Há nela alguns acontecimentos que muitos desconhecem.
A ANUNCIAÇÃO: Ao invés de famílias tranqüilas e felizes, o evangelho de Lucas registra que Maria, ao receber a visita do anjo, anunciando sua concepção sobrenatural, teve medo (Lc 1:28-38): “Como será isto, pois não tenho relação com homem algum” (Lc 1:34). As implicações e as conseqüências deste fato eram terríveis. O adultério era passível de morte por apedrejamento. E seus pais, o que diriam? Será que creriam em sua história? E o seu noivo, José? Será que lhe daria crédito? Parece que inicialmente não creu, pois a deixou secretamente (Mt 1:19). Lá estava ela, uma adolescente sozinha, desamparada, abandonada pelo noivo, procurando refúgio na única pessoa que poderia compreendê-la, Isabel. Mas o que mais me chama a atenção em Maria é que diante de todas as implicações ela não se acovardou, e respondeu: “Aqui está a serva do Senhor, que se cumpra em mim conforme a tua Palavra” (Lc 1:38). Com grande freqüência, uma obra de Deus vem sempre acompanhada de dois gumes: grande alegria e grande sofrimento. Nesta resposta, Maria abraçou os dois, sendo a primeira pessoa a aceitar Jesus com todas as suas implicações.
O NASCIMENTO: A vinda de Jesus ao mundo segue as mesmas dificuldades e sobressaltos: o recenseamento, a viagem árdua de Nazaré a Belém, a falta de acomodações próprias, e por fim, um estábulo improvisado (Lc 2:1-7). Naquele lugar tão diferente das atuais maternidades, nasce o Rei, tendo por cama uma manjedoura, local onde se colocavam alimento para os animais. O que uma jovem adolescente poderia pensar diante desse quadro: “Que salvador será este? Que rei vem ao mundo desta maneira? Como poderá herdar o trono de Davi se o que ele tem é apenas uma manjedoura suja e improvisada? Será que tudo isso não passou de um sonho?” Mas, aquilo que aos olhos humanos ainda era obscuro, Deus declarou em plena luz nos campos: a glória de Deus brilhou aos pastores (Lc 2:18-14) e ao firmamento, guiando os magos do oriente até o menino (Mt 2:1-12). Ao receber presentes da realeza (ouro, incenso e mirra), penso que Maria deve ter se perguntado: “Quem é este menino verdadeiramente?”.
A MATANÇA DOS INOCENTES: Engraçado, nunca vi em um cartão de Natal nem em uma vitrine a descrição deste ato insano e terrorista patrocinado pelo Estado! Mas ele também faz parte do primeiro Natal. Herodes, sentindo-se ameaçado pelo nascimento de um rei, reagiu como de costume: ordenou que assassinassem todas as crianças de dois anos para baixo (Lc 2:16-18). E assim, Jesus entrou no mundo, no meio da disputa e do terror, indo passar a sua infância escondido no Egito, como um terrorista refugiado numa nação que trazia lembranças tão amargas (Mt 2:13-15). Logo após a morte de Herodes, um anjo ordena a José que retorne a Galiléia. Finalmente, eles poderiam ter um pouco de paz e tranqüilidade para criar o seu filho Jesus (Mt 2:19-23).
REVELANDO A DEUS: Se Jesus veio revelar Deus ao mundo, então o que eu aprendo acerca de Deus neste primeiro Natal? A primeira lição é a humildade. Ao contrário do deus vingativo e insano de algumas religiões, Deus se humilhou em sua busca desesperada pela restauração do homem, corrompido pelo pecado. A segunda lição é a proximidade. Em Jesus, Deus nos deu um rosto. Ele tornou-se acessível a todos os que o buscam. Agora sabemos que Deus não está distante, mas ao alcance e bem próximo de todos nós. A terceira lição é o esvaziamento. Há um poema que traduz bem esta realidade:
O Deus de poder,
enquanto percorria,
em suas majestosas roupagens de glória,
resolveu parar;
e assim um dia Ele desceu,
e pelo caminho se despia.
Ele se esvaziou de sua glória para absorver o nosso pecado na cruz, reconciliando-nos com o Pai... Seria bom se o mundo conhecesse a verdadeira história do primeiro Natal.
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