AS INFIDELIDADES CRISTÃS AO CRISTIANISMO
As infidelidades ocorreram e, de certo modo, sempre ocorrerão no meio da cristandade. Elas são individuais ou coletivas e, apesar de incontáveis, difíceis de determinar. Representam desvios, em certo sentido estruturais, que constituíram afastamentos da fé ou das exigências dogmáticas e morais.
No começo do cristianismo já se observam desvios surpreendentes: a resistência dos judeus em aceitar Jesus como o Messias, a resistência à universalidade da mensagem do evangelho para além do “povo eleito”, a expectativa de um Messias político, a introdução dos conceitos filosóficos helênicos na fé, a busca do martírio como excesso de zelo ou desejo de perfeição, o aproveitamento pela igreja de certas estruturas políticas com uma aproximação perigosa aos poderes seculares, dentre outros. À medida que a igreja vai se consolidando, as tentações multiplicam. Vejamos.
Como instituição consolidada, a igreja começa a ter importância não só religiosa, mas, em certa medida, temporal: poder, riqueza, influência e interesses pessoais se assomam. As discussões teológicas, quando existem, se deixam influenciar por motivos que não são o respeito ao sentido justo da revelação. Há rivalidades, formação de grupos afins, vinculados a denominações, comunidades sociais ou tradições culturais, enfim, a vaidades pessoais. As soberbas humanas, desde o cisma entre Roma e Constantinopla, tomaram o centro do palco, transformando o cristianismo em uma imposição como um poder temporal. Estas atitudes, que levaram às guerras de religião, foram impetradas tanto por católicos quanto por protestantes. As conexões temporais, políticas ou de outro tipo que queiram chamar, foram decisivas nas guerras que tomaram a religião cristã como pretexto. O odium theologucum foi freqüente. As discussões foram muitas vezes mais partidárias do que intelectuais. É incalculável o dano que isso causou ao cristianismo, e que ainda tem causado.
Há outras formas mais modernas de infidelidade ao cristianismo. A “aversão” ao mundo, ou ao humano, tem sido uma recorrente tentação. O pretexto parece ser o mesmo: o rigor ascético, como se a criação de Deus fosse agora eleita como inimigo. Com isso, a igreja perde sua capacidade de ser “sal da terra e luz do mundo”, além de criar sub-culturas cristãs herméticas e preconceituosas. A perigosa aproximação aos poderes seculares e políticos parece-nos ser outra tentação. Ela é inquietante em dois sentidos: o primeiro, o servir-se deles em benefício de uma tendência ou interesse particular; o outro, depender desses poderes, ou seja, deixar-se utilizar ou manipular por eles. Não é isso que temos visto? Não há em nossos dias uma aproximação perigosa com estes “poderes”, utilizando-se de uma infundada desculpa de fazer avançar o reino de Deus? O que muitos destes querem é fazer avançar o seu império pessoal...
Contudo, a infidelidade mais grave que postulo talvez seja a que tem maior atualidade em nosso tempo: o esquecimento da outra vida. Para muitos, e por que não dizer para a grande maioria, hoje o mundo atual é o único horizonte possível. Como conseqüência de vários fatores, se foi dissipando a referência à vida eterna, a projeção para uma vida além da que existe. Com isso, essa situação reduziu Deus a uma simples referência nominal na qual mal se pensa. E quando se pensa, pensa-se para saciar a condição atual, esvaziando o cristianismo de um de seus mais sublimes e principais conteúdos. Esta é a situação de grande número de pessoas que se consideram cristãs: católicas, ortodoxas ou protestantes. Para elas, o céu é o limite, conquanto devesse ser o destino. Estas são, por enquanto, algumas infidelidades ao cristianismo que observo.
"Nos passos do pastor" é o caminho de um peregrino em direção à cidade celestial.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
O VÉU RASGADO
Ao fim da paixão, com a morte de Jesus, encontramos a narrativa de um intrigante acontecimento: o véu do templo rasga-se em dois, de alto a baixo (Mt 27:51, Mc 15:38, Lc 23:45). Havendo dois véus no templo, aqui se entende provavelmente o interno, isto é, o véu que impedia as pessoas de ter acesso ao Santo dos Santos. Apenas uma vez por ano, o sumo sacerdote poderia atravessar o véu e apresentar-se na presença do Altíssimo.
Agora, no momento da morte de Jesus, esse véu que representa todo o sistema sacrificial e de culto do Velho Testamento rasga-se de alto a baixo. Qual o significado deste acontecimento? O que ele representa? Antes, porém, de observar seu significado, saibamos que o véu rasgado foi um acontecimento crucial. Como um divisor de águas, ele separa duas dispensações, a saber: a velha, da nova. Foi também um acontecimento inaugural, isto é, ele inaugura um novo tempo, uma nova época, um novo sistema, uma nova aliança. Mas, enfim, o que o véu rasgado significa?
Uma Nova mediação
Em primeiro lugar, o véu rasgado significa uma nova mediação. O véu rasgado significa que o período do antigo templo com os seus sacrifícios e rituais como sistema de culto terminou. No lugar dos símbolos e rituais, que eram instrumentos de mediação entre o homem e Deus, temos agora a própria realidade e o único Mediador: Jesus Cristo crucificado que nos reconcilia com o Pai.
Em sua primeira visita ao templo, conquanto nos dias de seu ministério terreno, Jesus vaticinou sobre o término deste antigo sistema de culto, quando declarou: “Eu destruirei este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2:13-22). Jesus estava afirmando que o período deste templo com seus rituais e sacrifícios terminara, e que algo novo chegaria, relacionado com a sua morte e ressurreição.
O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, também fala da supremacia e da primazia de Cristo sobre o antigo sistema de mediação do judaísmo de sua época: “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (1Tm 2:5). Portanto, cuidemos de não introduzirmos outro mediador entre nós e Deus. Cristo é o único e suficiente Mediador, porque Ele é o único eficiente Mediador para nos conduzir a Deus!
Uma nova adoração
Em segundo lugar, o véu rasgado significa uma nova adoração. O rasgar-se do véu do templo significa que agora está aberto o acesso a Deus. Até então, o rosto de Deus estivera velado. Só por meio de sinais e uma vez por ano podia o sumo sacerdote colocar-se diante de Deus. Agora, o próprio Deus tirou o véu. Se em Moisés Deus nos ofereceu as “suas costas” (Ex 33:23), em Cristo Deus nos deu o seu rosto, sua vida e sua morte. O acesso a Deus está livre!
Esta sublime realidade é descrita de forma vívida no livro de Hebreus. Ele é o livro por excelência da supremacia de Cristo sobre as “sombras” (Cl 2:16,17) que o Velho Testamento descreve: Cristo é superior aos anjos (Hb 1), superior a Moisés (Hb 3), superior ao sábado (Hb 4), superior ao sacerdócio do VT (Hb 5), superior a antiga aliança (Hb 8) e superior aos sacrifícios e rituais da antiga aliança (Hb 9). O autor nos revela que, através do perfeito sacrifício de Cristo, “tenhamos, pois, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10:19,20). O acesso a Deus foi aberto. O véu foi rasgado. O sangue foi derramado. A obra foi consumada. Agora, adoramos a Deus em espírito e em verdade (Jo 4:23). Esta é a adoração proposta por Cristo.
Cuidemos, pois, para não retornarmos às sombras, já que nos foi revelada a luz, a própria realidade: Cristo. Cuidemos de não oferecermos a Ele “fogo estranho” em nossa adoração. Nosso culto é realizado pela mediação de Cristo, isto é, através de Cristo e para Cristo. Hebreus nos instrui a oferecer a Deus “sacrifício de louvor” (Hb 13:15), e não introduzir em nossos cultos elementos rituais e sacrificiais pertencentes à velha aliança, pois estes cessaram em Cristo.
Cuidemos de ouvir as palavras inspiradas do apóstolo, que já em seus dias labutava contra o erro e a intolerância dos judaizantes que teimavam em introduzir elementos do antigo sistema no culto cristão: “Ninguém vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém a igreja é de Cristo” (Cl 2:16,17).
Ao fim da paixão, com a morte de Jesus, encontramos a narrativa de um intrigante acontecimento: o véu do templo rasga-se em dois, de alto a baixo (Mt 27:51, Mc 15:38, Lc 23:45). Havendo dois véus no templo, aqui se entende provavelmente o interno, isto é, o véu que impedia as pessoas de ter acesso ao Santo dos Santos. Apenas uma vez por ano, o sumo sacerdote poderia atravessar o véu e apresentar-se na presença do Altíssimo.
Agora, no momento da morte de Jesus, esse véu que representa todo o sistema sacrificial e de culto do Velho Testamento rasga-se de alto a baixo. Qual o significado deste acontecimento? O que ele representa? Antes, porém, de observar seu significado, saibamos que o véu rasgado foi um acontecimento crucial. Como um divisor de águas, ele separa duas dispensações, a saber: a velha, da nova. Foi também um acontecimento inaugural, isto é, ele inaugura um novo tempo, uma nova época, um novo sistema, uma nova aliança. Mas, enfim, o que o véu rasgado significa?
Uma Nova mediação
Em primeiro lugar, o véu rasgado significa uma nova mediação. O véu rasgado significa que o período do antigo templo com os seus sacrifícios e rituais como sistema de culto terminou. No lugar dos símbolos e rituais, que eram instrumentos de mediação entre o homem e Deus, temos agora a própria realidade e o único Mediador: Jesus Cristo crucificado que nos reconcilia com o Pai.
Em sua primeira visita ao templo, conquanto nos dias de seu ministério terreno, Jesus vaticinou sobre o término deste antigo sistema de culto, quando declarou: “Eu destruirei este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2:13-22). Jesus estava afirmando que o período deste templo com seus rituais e sacrifícios terminara, e que algo novo chegaria, relacionado com a sua morte e ressurreição.
O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, também fala da supremacia e da primazia de Cristo sobre o antigo sistema de mediação do judaísmo de sua época: “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (1Tm 2:5). Portanto, cuidemos de não introduzirmos outro mediador entre nós e Deus. Cristo é o único e suficiente Mediador, porque Ele é o único eficiente Mediador para nos conduzir a Deus!
Uma nova adoração
Em segundo lugar, o véu rasgado significa uma nova adoração. O rasgar-se do véu do templo significa que agora está aberto o acesso a Deus. Até então, o rosto de Deus estivera velado. Só por meio de sinais e uma vez por ano podia o sumo sacerdote colocar-se diante de Deus. Agora, o próprio Deus tirou o véu. Se em Moisés Deus nos ofereceu as “suas costas” (Ex 33:23), em Cristo Deus nos deu o seu rosto, sua vida e sua morte. O acesso a Deus está livre!
Esta sublime realidade é descrita de forma vívida no livro de Hebreus. Ele é o livro por excelência da supremacia de Cristo sobre as “sombras” (Cl 2:16,17) que o Velho Testamento descreve: Cristo é superior aos anjos (Hb 1), superior a Moisés (Hb 3), superior ao sábado (Hb 4), superior ao sacerdócio do VT (Hb 5), superior a antiga aliança (Hb 8) e superior aos sacrifícios e rituais da antiga aliança (Hb 9). O autor nos revela que, através do perfeito sacrifício de Cristo, “tenhamos, pois, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10:19,20). O acesso a Deus foi aberto. O véu foi rasgado. O sangue foi derramado. A obra foi consumada. Agora, adoramos a Deus em espírito e em verdade (Jo 4:23). Esta é a adoração proposta por Cristo.
Cuidemos, pois, para não retornarmos às sombras, já que nos foi revelada a luz, a própria realidade: Cristo. Cuidemos de não oferecermos a Ele “fogo estranho” em nossa adoração. Nosso culto é realizado pela mediação de Cristo, isto é, através de Cristo e para Cristo. Hebreus nos instrui a oferecer a Deus “sacrifício de louvor” (Hb 13:15), e não introduzir em nossos cultos elementos rituais e sacrificiais pertencentes à velha aliança, pois estes cessaram em Cristo.
Cuidemos de ouvir as palavras inspiradas do apóstolo, que já em seus dias labutava contra o erro e a intolerância dos judaizantes que teimavam em introduzir elementos do antigo sistema no culto cristão: “Ninguém vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém a igreja é de Cristo” (Cl 2:16,17).
sábado, 30 de julho de 2011
ELEMENTOS ESSENCIAIS QUE IDENTIFICAM A IGREJA DE CRISTO
João 15:1-16
INTRODUÇÃO
Cada local que conhecemos tem sua singularidade. São características que fazem do lugar único. Nessas férias de julho tive o privilégio de conhecer alguns lugares assim: marcados pela sua singularidade. Assim é o evangelho de João: singular. Há nele alguns elementos que o marcam como único e o destaca dos outros três (Mateus, Marcos e Lucas).
Uma das singularidades é a preocupação com a igreja. Ele deseja apontar quais são os elementos essenciais que a identificam como uma verdadeira igreja de Cristo. Isso está representado aqui neste texto sobre a “Videira Verdadeira”. Vejamos:
1. O primeiro elemento essencial que identifica a igreja é a sua união e permanência com Cristo (v 4).
A igreja de Cristo provém de sua união e permanência com Ele (a palavra “permanecer” ocorre dez vezes nestes dezesseis versos). Ela existe e subsiste devido a isso. O que faz da igreja ser igreja é que ela depende de sua união com Cristo para existir. Esta união e permanência mística é a base para qualquer realização lícita que a igreja venha desempenhar (v 5): “Sem mim, nada podeis fazer”. Sem isso, não há nada que glorifique a Deus, pelo contrário, serve apenas para ser lançado no fogo (v 6).
Permanecer com Cristo é permanecer na Sua Palavra (v 7). No sermão escatológico de Cristo, Ele fala da eternidade da Palavra (Mateus 24:35). “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão”. Ou seja, Jesus fala da permanência de Sua Palavra em contraste com a transitoriedade do mundo. A Palavra é eterna, enquanto o mundo é passageiro. Ele também fala da realidade absoluta de Sua Palavra em contraste com a relatividade do mundo. Cristo é o verdadeiro “fundamento” sob o qual a igreja e o homem devem estar e permanecer.
2. O segundo elemento essencial que identifica a igreja é a purificação e santificação por Cristo (v 1,2).
As religiões teimam em criar sistemas de purificação com a finalidade de dar ao homem a possibilidade do acesso a Deus, embora todas elas falhem. O que o evangelho trouxe à luz é que a pureza é um dom. É Cristo quem nos torna puros (Jo 13:10, Jo 17:3). É Ele quem declara: “Vós estais limpos”. É por meio de Sua bendita Palavra que a santificação ocorre (Jo 15:3, 17:17-19). É ela quem nos lava de toda imundícia do pecado e nos habilita a sermos “novas criaturas”.
Mas, como um dom, a pureza necessita de nossa cooperação. A santificação é um processo sinérgico, ou seja, há uma justa união entre o que Cristo faz e o que eu faço. Ela é um processo dinâmico de desenvolvimento do dom que recebemos de Cristo. Sem a santificação ninguém verá o Senhor, declarou o apóstolo Paulo. Isso significa que a fé genuína, posta agora em operação através da ação do Espírito Santo, santifica-nos a fim de sermos recebidos como servos bons e fiéis. A fé falsa, não.
3. O terceiro e último elemento essencial que identifica a igreja é a produção de fruto para Cristo (v 2,5,8,16).
A santificação não envolve apenas purificação, mas também missão (Jo 17:17-19). Significa que agora pertencemos a Deus para servi-Lo de todo o nosso coração. Significa uma nova destinação. Uma nova esfera de ação. O homem é destinado para Deus e não para si mesmo. Significa deixar de estar à disposição do homem e de seus interesses mundanos e colocar-se à disposição de Deus. À santificação segue-se a missão. O homem agora frutifica para Deus.
Há nele uma disposição para agradá-Lo e servi-Lo: (1) É uma disposição intensa (v 5): “Muito fruto”. (2) É uma disposição que glorifica a Deus (v 8): “Nisto é glorificado o Pai, em que deis muito fruto”. (3) É uma disposição permanente (v 16): “E o vosso fruto permaneça”. Dentre os frutos, o maior é o amor (v 12, 17, Jo 13:34,35). Aliás, o amor é a identidade do cristão.
CONCLUSÃO
1. A união e a permanência com Cristo nos habilita a ser igreja. A igreja advém de sua união com Cristo.
2. A purificação e santificação por Cristo nos capacita a ser igreja. A capacidade da igreja não provém de suas habilidades, mas de sua semelhança com Cristo.
3. A produção de frutos para Cristo nos disponibiliza a ser igreja. São através dos frutos que seremos reconhecidos.
Agora, notem: é com Cristo, por Cristo e para Cristo, “porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas”. Amém!
quinta-feira, 5 de maio de 2011
DUAS METÁFORAS DA IGREJA
João é o evangelho da igreja. Ele o escreve para combater dois fortes inimigos: um de fora e o outro de dentro. O de fora são as perseguições desencadeadas por Roma. O de dentro eram as terríveis heresias que atingiam principalmente a divindade de Cristo. Daí, em João, Jesus ser apresentado como o Filho de Deus, o Deus Todo Poderoso, o grande “EU SOU”.
João escreve o mais teológico de todos os evangelhos, devido a sua preocupação com a igreja. A idolatria e o abandono da fé eram os dois males que estavam ocorrendo em função da perseguição e dos falsos ensinos. Diante disso, as duas narrativas, a da mulher adúltera e a do retorno de Pedro à pesca, tomam novos contornos. A minha impressão é que elas foram inseridas a fim de demonstrar algo mais. Talvez João quisesse denunciar os dois males que estavam ocorrendo na igreja da época: a idolatria e o abandono da fé!
Será que a mulher adúltera pode ser uma metáfora da igreja? Vejamos. Ela foi apanhada em flagrante adultério. Ela se prostituiu. Ela entregou o seu amor e a sua devoção a outro. Mas, não é esta a figura utilizada pelos profetas do VT para denunciar a idolatria de Israel? Não é esta a figura utilizada também por Jesus para denunciar a idolatria das Igrejas em Pérgamo (Ap 2:14) e também em Tiatira (Ap 2:20,21)? Será que nós também não temos entregado nosso amor e devoção a outro?
Ela foi alvo da graça e do perdão de Cristo. Ninguém ousou atirar-lhe a primeira pedra. Confrontados com seus próprios pecados, todos se retiraram. E Cristo ficou a sós com a mulher! A ela o tratamento de Cristo é pessoal e restaurador: “Nem eu tampouco te condeno. Vá e não peques mais”. Não é isto que Cristo faz constantemente à sua igreja? Perdoá-la e dar-lhe uma nova chance? Nós, que somos entregues à misericórdia de Deus todos os dias? Uma coisa é a sua igreja ser acusada diante dos homens: eles não têm misericórdia... Outra coisa é a sua igreja ser acusada diante de Cristo: ela alcançará misericórdia e perdão, pois Cristo nos ama acima de nossos amores pervertidos... Não foi assim com Oséias? Um dramático exemplo dessa maravilhosa graça?
Será que Pedro fugindo de sua verdadeira vocação pode ser uma metáfora da igreja? Vejamos. Pedro não somente retorna à pesca, mas leva consigo seus companheiros. Aquele que ouviu dos lábios de Jesus uma nova incumbência, retorna à sua velha vida. Trabalharam a noite toda e nada apanharam... Quando a igreja foge de sua real vocação, ela tende quase sempre ao fracasso: fracassou ao se misturar com o Estado no IV século; fracassou a abraçar a teologia da prosperidade; tem fracassado ao se misturar com a política em nossos dias...
Pedro vê um estranho na praia. Este estranho faz uma pergunta que lhe acentua o fracasso: “Tendes aí alguma coisa de comer?” Ele lhes dá uma ordem que é obedecida, obtendo uma pesca abundante. João reconhece Jesus e o diz a Pedro. Ele agora experimenta o gosto amargo de dois fracassos: o primeiro, o fracasso da pesca; o segundo, o fracasso da negação covarde de Cristo. É assim que muitas vezes a igreja se define: uma congregação de pecadores, traidores covardes que tantas vezes põe o interesse próprio acima do serviço a Deus... Uma congregação que tantas vezes abandona o seu real chamado e se alia ao poder secular para não perder seus “privilégios”... Uma congregação que tantas vezes se emudece diante de vozes tão menos expressivas...!
Mas, a despeito da vergonha da negação e da fuga da vocação, Jesus ama a sua igreja e conta com ela. Pedro vê um estranho na praia, mas Jesus não vê um estranho no barco. Quando a igreja foge de sua real vocação, Cristo a traz de volta, restaurando a comunhão com Ele e restaurando a vocação que provém dele. A refeição na praia e a declaração de amor revelam sua estratégia.
Voltemos às questões iniciais. A mulher adúltera pode ser uma metáfora da igreja? Sim, ela pode. E com ela aprendemos que o amor de Cristo é invencível. A despeito de nossos amores desgovernados e inconstantes, Cristo nos ama até o fim! A fuga de Pedro pode ser uma metáfora da igreja? Sim, ela pode. E com ela aprendemos que o dom e a vocação de Deus são irrevogáveis. Uma vez chamados por Cristo, o seremos até o fim!
Quando sou tentado a olhar para a igreja de Cristo como a “mulher adúltera” ou como “Pedro fugitivo”, lembro-me da pergunta de Jesus feita aos seus discípulos: “Vocês também querem ir embora”, e respondo como Pedro: “Senhor, a quem iremos, pois só tu tens as palavras de vida eterna”.
João escreve o mais teológico de todos os evangelhos, devido a sua preocupação com a igreja. A idolatria e o abandono da fé eram os dois males que estavam ocorrendo em função da perseguição e dos falsos ensinos. Diante disso, as duas narrativas, a da mulher adúltera e a do retorno de Pedro à pesca, tomam novos contornos. A minha impressão é que elas foram inseridas a fim de demonstrar algo mais. Talvez João quisesse denunciar os dois males que estavam ocorrendo na igreja da época: a idolatria e o abandono da fé!
Será que a mulher adúltera pode ser uma metáfora da igreja? Vejamos. Ela foi apanhada em flagrante adultério. Ela se prostituiu. Ela entregou o seu amor e a sua devoção a outro. Mas, não é esta a figura utilizada pelos profetas do VT para denunciar a idolatria de Israel? Não é esta a figura utilizada também por Jesus para denunciar a idolatria das Igrejas em Pérgamo (Ap 2:14) e também em Tiatira (Ap 2:20,21)? Será que nós também não temos entregado nosso amor e devoção a outro?
Ela foi alvo da graça e do perdão de Cristo. Ninguém ousou atirar-lhe a primeira pedra. Confrontados com seus próprios pecados, todos se retiraram. E Cristo ficou a sós com a mulher! A ela o tratamento de Cristo é pessoal e restaurador: “Nem eu tampouco te condeno. Vá e não peques mais”. Não é isto que Cristo faz constantemente à sua igreja? Perdoá-la e dar-lhe uma nova chance? Nós, que somos entregues à misericórdia de Deus todos os dias? Uma coisa é a sua igreja ser acusada diante dos homens: eles não têm misericórdia... Outra coisa é a sua igreja ser acusada diante de Cristo: ela alcançará misericórdia e perdão, pois Cristo nos ama acima de nossos amores pervertidos... Não foi assim com Oséias? Um dramático exemplo dessa maravilhosa graça?
Será que Pedro fugindo de sua verdadeira vocação pode ser uma metáfora da igreja? Vejamos. Pedro não somente retorna à pesca, mas leva consigo seus companheiros. Aquele que ouviu dos lábios de Jesus uma nova incumbência, retorna à sua velha vida. Trabalharam a noite toda e nada apanharam... Quando a igreja foge de sua real vocação, ela tende quase sempre ao fracasso: fracassou ao se misturar com o Estado no IV século; fracassou a abraçar a teologia da prosperidade; tem fracassado ao se misturar com a política em nossos dias...
Pedro vê um estranho na praia. Este estranho faz uma pergunta que lhe acentua o fracasso: “Tendes aí alguma coisa de comer?” Ele lhes dá uma ordem que é obedecida, obtendo uma pesca abundante. João reconhece Jesus e o diz a Pedro. Ele agora experimenta o gosto amargo de dois fracassos: o primeiro, o fracasso da pesca; o segundo, o fracasso da negação covarde de Cristo. É assim que muitas vezes a igreja se define: uma congregação de pecadores, traidores covardes que tantas vezes põe o interesse próprio acima do serviço a Deus... Uma congregação que tantas vezes abandona o seu real chamado e se alia ao poder secular para não perder seus “privilégios”... Uma congregação que tantas vezes se emudece diante de vozes tão menos expressivas...!
Mas, a despeito da vergonha da negação e da fuga da vocação, Jesus ama a sua igreja e conta com ela. Pedro vê um estranho na praia, mas Jesus não vê um estranho no barco. Quando a igreja foge de sua real vocação, Cristo a traz de volta, restaurando a comunhão com Ele e restaurando a vocação que provém dele. A refeição na praia e a declaração de amor revelam sua estratégia.
Voltemos às questões iniciais. A mulher adúltera pode ser uma metáfora da igreja? Sim, ela pode. E com ela aprendemos que o amor de Cristo é invencível. A despeito de nossos amores desgovernados e inconstantes, Cristo nos ama até o fim! A fuga de Pedro pode ser uma metáfora da igreja? Sim, ela pode. E com ela aprendemos que o dom e a vocação de Deus são irrevogáveis. Uma vez chamados por Cristo, o seremos até o fim!
Quando sou tentado a olhar para a igreja de Cristo como a “mulher adúltera” ou como “Pedro fugitivo”, lembro-me da pergunta de Jesus feita aos seus discípulos: “Vocês também querem ir embora”, e respondo como Pedro: “Senhor, a quem iremos, pois só tu tens as palavras de vida eterna”.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
A CANÇÃO DO PROFETA NO DESERTO DA MORTE
Alguém já disse que há uma diferença entre o poeta e o profeta. Essa diferença está no ouvinte. É que o poeta canta suas canções para os vivos, enquanto o profeta canta suas canções para os mortos. O que os diferencia está no estado do ouvinte: se vivo ou morto. Daí a vocação do profeta ser tão difícil.
É fácil cantar para os vivos. Seus ouvidos estão preparados para receber a música. O seu corpo responde com satisfação ao toque da melodia. Há uma cumplicidade entre o que é falado e o que é ouvido. A música cumpre o seu papel: faz amor com o corpo que estremece diante da beleza. Mas, para os mortos, a coisa muda de figura. Não há resposta. O profeta é o poeta que canta quando não há ninguém para ouvir. Ele canta porque acredita no inacreditável: que mesmo diante da morte, há de se brotar a vida. O profeta é aquele que anuncia ressurreições.
Há nas Sagradas Escrituras uma história surpreendente de um profeta que foi levado ao lugar dos mortos. Ele era uma versão antiga de Louis Musset, um poeta francês que tinha um estranho hábito: declamar seus poemas nos cemitérios de Paris. Aquele era o lugar de sua vocação, um cemitério, cheio de sepulcros com ossos expostos. Nem sequer foram enterrados. Estavam lá, espalhados para quem quisesse ver. Uma visão aterradora, digna de um filme de terror. Ele tinha uma missão: trazê-los de volta à vida através da música que brotaria de suas palavras. Mas como ouviriam se estavam mortos? Que estranha tarefa foi-lhe comissionada: falar aos mortos!
Que palavra seria esta que tem o poder de trazer os mortos de volta à vida?... Ele entra na casa onde há pranto e dor: “... a menina não morreu, mas dorme...”. A cidade está cercada pelos exércitos inimigos, mas ele toma todas as suas economias e compra um pedaço de terra... O corpo da esposa há muito deixou de experimentar os poderes da fertilidade, mas ele compra um bercinho...
O profeta, descobri, é aquele que arranca a etiqueta da morte. Ele anda na contramão do tempo. O normal é nascer, viver e morrer. É a regra geral da vida. Os poetas seguem esta mesma trilha de certezas. Para os profetas, no entanto, é o contrário: morrer, renascer e viver. Por isso não é fácil ser profeta. Há muitos que se autodenominam, é verdade. Mas não passam de poetas medíocres que compõem suas rasas canções com aquilo que todos gostam de ouvir. É necessário, portanto, considerar o que o profeta não é, pois quando conhecemos o contrário, fica fácil entender o correto.
O profeta não é um educador. O educador é aquele que ensina visando à compreensão. O profeta, ao contrário, busca a transformação. Para ele, compreender é pouco. Ele quer mudanças. O professor explica tudo com detalhes a fim de que não haja lugares escuros. Seu negócio é a claridade. O profeta, ao contrário, gosta da neblina. Ele fala mistérios. Enquanto o negócio do professor é o sol, o do profeta é o Vento! E este, sopra onde quer. Independe da vontade e dos conceitos humanos.
O profeta também não é um artista plástico. O pintor é aquele que enfeita aquilo que está morto para devolver-lhe a aparência de vivo. Ele cobre a tela morta com luzes e cores. Ele cultiva as aparências estéticas. O profeta, ao contrário, não se interessa por aparências. Aliás, a última coisa com o que ele conta são com as aparências. Ele sabe que folhas, mesmo exuberantes e viçosas, não matam a fome de Deus. Ele não chama o morto de vivo e nem quer fazer o morto parecer vivo. O profeta não veio para melhorar ninguém. Ele quer vivificar. Tornar vivo o que estivera morto.
O profeta também não é um moralista. Ele tem a plena consciência de que é impossível dar ordens a uma pedra. Ele sabe que morto não responde aos apelos morais e éticos por um simples fato: ele está morto! E morto não é capaz de obedecer a ordens. Não há nada nele que o capacite a responder qualquer apelo que vem de fora. Quem vocifera normas e condutas num cemitério corre o risco de ficar rouco e solitário, quando não, ser taxado de louco.
Por fim, o profeta também não é um líder político. Político é aquele que fala o que todos querem ouvir. Sua estratégia é agradar com lisonjas ouvidos ávidos por prazeres estéticos. Faz promessas mirabolantes em troca de favores concedidos – o voto. Utilizam-se de quaisquer meios para alcançar seus objetivos. Trocam de pele segundo o ambiente em que se encontram. O profeta é diferente. Não tem o selo de nenhum partido por não aceitar meias verdades. Quem se prepuser a iluminar os outros não pode se contentar com verdades relativas. Sua palavra é a inversão da palavra política. Ele fala aquilo que a maioria não quer ouvir. Sua palavra não provoca arrepios sensuais pelo simples fato de provocar indignação em muitos. Ele herdou uma vocação e não uma profissão. E vai cumpri-la a qualquer custo.
Mas, que palavra é esta que tem o poder de trazer vida aos mortos? Certamente não pode ser uma palavra qualquer. Ela não pode pertencer à natureza do profeta. Apesar de arraigada em suas entranhas, a palavra não nasceu dele, fruto apenas de seu conhecimento e experiência. O seu local de origem não pertence à escala das coisas criadas. A palavra da experiência própria não tem o poder de gerar vida. Por isso há de vir de um Outro. Alguém com poder suficiente para ressuscitar os mortos.
Esta palavra não nasce da cabeça. A cabeça é o lugar das razões. É o local onde as racionalidades moram com todas as suas explicações matemáticas e científicas. A palavra do profeta nasce no coração. Ela fala de amor, não de razão. Como dizia o poeta: “O amor não tem porquês. Ama porque ama”. Profetiza bem quem ama, e não apenas entende. De bons entendedores o mundo está cheio. De bons interpretes as universidades estão abarrotadas. O que falta são os apaixonados. Homens que falam movidos pelo amor e não pela agenda.
É uma palavra que não tem por finalidade o esclarecimento, mas a invocação. Ela declara a verdade. Traz à existência a operação do sobrenatural. Liga o céu a terra, e a partir dela acontece o milagre.
Que palavra misteriosa é esta? Há de se obter a resposta nas Sagradas Escrituras. “No princípio era o Verbo. E o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. E vimos a Sua glória...”. A palavra do profeta que traz o morto de volta à vida é o Verbo de Deus - Jesus! E o milagre aconteceu... Como naquele cemitério judeu num livro que li sobre os horrores do holocausto, único lugar onde aquela jovem estaria a salvo das atrocidades dos soldados nazistas e das câmaras de gás, onde escondida numa sepultura próxima a sua, uma menina deu à luz um lindo bebê. O velho coveiro, guardador dos mortos e dos vivos, enrolou-o numa toalha e ao primeiro grito do menino, orou: “Grande Deus, finalmente envias-te o Messias! Pois que outra criança poderia nascer numa sepultura”.
E no cemitério, a vida apareceu...
É fácil cantar para os vivos. Seus ouvidos estão preparados para receber a música. O seu corpo responde com satisfação ao toque da melodia. Há uma cumplicidade entre o que é falado e o que é ouvido. A música cumpre o seu papel: faz amor com o corpo que estremece diante da beleza. Mas, para os mortos, a coisa muda de figura. Não há resposta. O profeta é o poeta que canta quando não há ninguém para ouvir. Ele canta porque acredita no inacreditável: que mesmo diante da morte, há de se brotar a vida. O profeta é aquele que anuncia ressurreições.
Há nas Sagradas Escrituras uma história surpreendente de um profeta que foi levado ao lugar dos mortos. Ele era uma versão antiga de Louis Musset, um poeta francês que tinha um estranho hábito: declamar seus poemas nos cemitérios de Paris. Aquele era o lugar de sua vocação, um cemitério, cheio de sepulcros com ossos expostos. Nem sequer foram enterrados. Estavam lá, espalhados para quem quisesse ver. Uma visão aterradora, digna de um filme de terror. Ele tinha uma missão: trazê-los de volta à vida através da música que brotaria de suas palavras. Mas como ouviriam se estavam mortos? Que estranha tarefa foi-lhe comissionada: falar aos mortos!
Que palavra seria esta que tem o poder de trazer os mortos de volta à vida?... Ele entra na casa onde há pranto e dor: “... a menina não morreu, mas dorme...”. A cidade está cercada pelos exércitos inimigos, mas ele toma todas as suas economias e compra um pedaço de terra... O corpo da esposa há muito deixou de experimentar os poderes da fertilidade, mas ele compra um bercinho...
O profeta, descobri, é aquele que arranca a etiqueta da morte. Ele anda na contramão do tempo. O normal é nascer, viver e morrer. É a regra geral da vida. Os poetas seguem esta mesma trilha de certezas. Para os profetas, no entanto, é o contrário: morrer, renascer e viver. Por isso não é fácil ser profeta. Há muitos que se autodenominam, é verdade. Mas não passam de poetas medíocres que compõem suas rasas canções com aquilo que todos gostam de ouvir. É necessário, portanto, considerar o que o profeta não é, pois quando conhecemos o contrário, fica fácil entender o correto.
O profeta não é um educador. O educador é aquele que ensina visando à compreensão. O profeta, ao contrário, busca a transformação. Para ele, compreender é pouco. Ele quer mudanças. O professor explica tudo com detalhes a fim de que não haja lugares escuros. Seu negócio é a claridade. O profeta, ao contrário, gosta da neblina. Ele fala mistérios. Enquanto o negócio do professor é o sol, o do profeta é o Vento! E este, sopra onde quer. Independe da vontade e dos conceitos humanos.
O profeta também não é um artista plástico. O pintor é aquele que enfeita aquilo que está morto para devolver-lhe a aparência de vivo. Ele cobre a tela morta com luzes e cores. Ele cultiva as aparências estéticas. O profeta, ao contrário, não se interessa por aparências. Aliás, a última coisa com o que ele conta são com as aparências. Ele sabe que folhas, mesmo exuberantes e viçosas, não matam a fome de Deus. Ele não chama o morto de vivo e nem quer fazer o morto parecer vivo. O profeta não veio para melhorar ninguém. Ele quer vivificar. Tornar vivo o que estivera morto.
O profeta também não é um moralista. Ele tem a plena consciência de que é impossível dar ordens a uma pedra. Ele sabe que morto não responde aos apelos morais e éticos por um simples fato: ele está morto! E morto não é capaz de obedecer a ordens. Não há nada nele que o capacite a responder qualquer apelo que vem de fora. Quem vocifera normas e condutas num cemitério corre o risco de ficar rouco e solitário, quando não, ser taxado de louco.
Por fim, o profeta também não é um líder político. Político é aquele que fala o que todos querem ouvir. Sua estratégia é agradar com lisonjas ouvidos ávidos por prazeres estéticos. Faz promessas mirabolantes em troca de favores concedidos – o voto. Utilizam-se de quaisquer meios para alcançar seus objetivos. Trocam de pele segundo o ambiente em que se encontram. O profeta é diferente. Não tem o selo de nenhum partido por não aceitar meias verdades. Quem se prepuser a iluminar os outros não pode se contentar com verdades relativas. Sua palavra é a inversão da palavra política. Ele fala aquilo que a maioria não quer ouvir. Sua palavra não provoca arrepios sensuais pelo simples fato de provocar indignação em muitos. Ele herdou uma vocação e não uma profissão. E vai cumpri-la a qualquer custo.
Mas, que palavra é esta que tem o poder de trazer vida aos mortos? Certamente não pode ser uma palavra qualquer. Ela não pode pertencer à natureza do profeta. Apesar de arraigada em suas entranhas, a palavra não nasceu dele, fruto apenas de seu conhecimento e experiência. O seu local de origem não pertence à escala das coisas criadas. A palavra da experiência própria não tem o poder de gerar vida. Por isso há de vir de um Outro. Alguém com poder suficiente para ressuscitar os mortos.
Esta palavra não nasce da cabeça. A cabeça é o lugar das razões. É o local onde as racionalidades moram com todas as suas explicações matemáticas e científicas. A palavra do profeta nasce no coração. Ela fala de amor, não de razão. Como dizia o poeta: “O amor não tem porquês. Ama porque ama”. Profetiza bem quem ama, e não apenas entende. De bons entendedores o mundo está cheio. De bons interpretes as universidades estão abarrotadas. O que falta são os apaixonados. Homens que falam movidos pelo amor e não pela agenda.
É uma palavra que não tem por finalidade o esclarecimento, mas a invocação. Ela declara a verdade. Traz à existência a operação do sobrenatural. Liga o céu a terra, e a partir dela acontece o milagre.
Que palavra misteriosa é esta? Há de se obter a resposta nas Sagradas Escrituras. “No princípio era o Verbo. E o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. E vimos a Sua glória...”. A palavra do profeta que traz o morto de volta à vida é o Verbo de Deus - Jesus! E o milagre aconteceu... Como naquele cemitério judeu num livro que li sobre os horrores do holocausto, único lugar onde aquela jovem estaria a salvo das atrocidades dos soldados nazistas e das câmaras de gás, onde escondida numa sepultura próxima a sua, uma menina deu à luz um lindo bebê. O velho coveiro, guardador dos mortos e dos vivos, enrolou-o numa toalha e ao primeiro grito do menino, orou: “Grande Deus, finalmente envias-te o Messias! Pois que outra criança poderia nascer numa sepultura”.
E no cemitério, a vida apareceu...
sábado, 2 de outubro de 2010
POLÍTICOS POR VOCAÇÃO OU PROFISSÃO?
Vocação, do latim vocare, quer dizer “chamado”. Vocação é um chamado interior de amor. Amor, não por um homem ou por uma mulher, mas por um “fazer”. Esse “fazer” marca o lugar onde o vocacionado vive seu amor com o mundo. Ali, no lugar do seu “fazer”, ele deseja auxiliar, servir, construir. Faria, mesmo que não ganhasse nada. Faria, mesmo que seu fazer o colocasse em perigo. Faria, mesmo que não tivessem muitos para aplaudir.
A vocação é uma paixão por um jardim. Vou explicar. Deus criou um jardim. Ele não era um urbanista, era um jardineiro, inventor de paraísos. Talvez pelo fato dos hebreus terem sido nômades no deserto. Quem mora no deserto sonha com oásis. Quem é vocacionado, quer cuidar do jardim. Ele é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar, para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso sonhar que o deserto inteiro se transforme em jardim.
Seria bom se fosse verdade que o deserto inteiro se transforme em jardim. Mas, para se transformarem em jardim é necessário braços, ferramentas, disposição. Há de se cavar, plantar, cuidar, arrancar, podar, fazer muros. A nobreza da vocação está em que ela tem o poder para transformar o sonho de um jardim num jardim de verdade onde a vida acontece.
Vocação é diferente de profissão. Na vocação, a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão, o prazer se encontra não na ação, mas no ganho que dela se deriva. O profissional, somente profissional, faz seu “fazer” não por amor a ele, mas por amor a algo fora dele: o salário, o ganho, o lucro, a vantagem. O homem movido pela vocação é um amante, pela profissão é um gigolô.
O perigo é que as vocações podem se transformar em profissões. Por exemplo, aos pastores seguem-se os mercenários. Aos políticos seguem-se os interesseiros. Guimarães Rosa, definindo sua vocação de escritor, disse: “Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem”. Eis aí a diferença fundamental entre a vocação e profissão: o vocacionado deseja a ressurreição do homem, enquanto o profissional sua utilização.
Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los a se tornarem jardineiros. Talvez haja uma vocação adormecida dentro de vocês (como na estória da Bela Adormecida...). Então, em vez de deserto e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor de plantar árvores a cuja sombra talvez nunca se assentem, mas que teriam a alegria de ver homens, mulheres e crianças vivendo e brincando num jardim...
A vocação é uma paixão por um jardim. Vou explicar. Deus criou um jardim. Ele não era um urbanista, era um jardineiro, inventor de paraísos. Talvez pelo fato dos hebreus terem sido nômades no deserto. Quem mora no deserto sonha com oásis. Quem é vocacionado, quer cuidar do jardim. Ele é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar, para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso sonhar que o deserto inteiro se transforme em jardim.
Seria bom se fosse verdade que o deserto inteiro se transforme em jardim. Mas, para se transformarem em jardim é necessário braços, ferramentas, disposição. Há de se cavar, plantar, cuidar, arrancar, podar, fazer muros. A nobreza da vocação está em que ela tem o poder para transformar o sonho de um jardim num jardim de verdade onde a vida acontece.
Vocação é diferente de profissão. Na vocação, a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão, o prazer se encontra não na ação, mas no ganho que dela se deriva. O profissional, somente profissional, faz seu “fazer” não por amor a ele, mas por amor a algo fora dele: o salário, o ganho, o lucro, a vantagem. O homem movido pela vocação é um amante, pela profissão é um gigolô.
O perigo é que as vocações podem se transformar em profissões. Por exemplo, aos pastores seguem-se os mercenários. Aos políticos seguem-se os interesseiros. Guimarães Rosa, definindo sua vocação de escritor, disse: “Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem”. Eis aí a diferença fundamental entre a vocação e profissão: o vocacionado deseja a ressurreição do homem, enquanto o profissional sua utilização.
Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los a se tornarem jardineiros. Talvez haja uma vocação adormecida dentro de vocês (como na estória da Bela Adormecida...). Então, em vez de deserto e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor de plantar árvores a cuja sombra talvez nunca se assentem, mas que teriam a alegria de ver homens, mulheres e crianças vivendo e brincando num jardim...
terça-feira, 13 de abril de 2010
PODEMOS SER BONS SEM DEUS?
Li outro dia um artigo com um título intrigante: “Podemos Ser Bons Sem Deus?”. A conclusão do autor, habilmente discutida e ponderada em algumas páginas, bem que poderia ser resumida numa só palavra: Não! Facilmente cedemos ao orgulho e ao egoísmo. A história da humanidade, desde o seu nascimento até os nossos dias, aponta para a mesma conclusão.
Como num filme, cenas de guerras, revoluções, injustiças, terrorismos, atrocidades, chacinas, violência, seqüestros e assassinatos estão impregnados em nossa alma. Convivemos com a maldade humana desde que nascemos. O primeiro choro do bebê já é um prenúncio de que há algo errado conosco e com o mundo. Por que ao invés do choro não há o sorriso?
Refletindo sobre a revolução comunista e as tragédias que se abateram sobre a Rússia, Solzhenitsyn escreveu:
“Passei quase cinqüenta anos pesquisando a história de nossa revolução. Li centenas de livros, coletei centenas de depoimentos e contribui com oito volumes de minha autoria para a iniciativa de remover as ruínas dessa levante. Mas se hoje me pedissem para formular da forma mais concisa possível a causa da desastrosa revolução que ceifou a vida de sessenta milhões de pessoas, eu não poderia ser mais preciso ao repetir: Os homens se esqueceram de Deus; daí a razão de tudo isso ter acontecido”.
Hoje, nas praças de Moscou, longas filas se formam a um simples aviso de distribuição do Novo Testamento. A história mostra o que os homens não querem reconhecer: precisamos de Deus. Pascal, um grande matemático e cientista do passado, disse: “É inútil, homem, buscares dentro de ti mesmo a cura para as tuas misérias. Todo o conhecimento que obtiveres só servirá para mostrar-te que não é em ti mesmo que encontrarás a verdade e o sumo bem”.
Um homem entra numa loja onde um grupo de pessoas se diverte, descarrega uma arma em um deles, despedaçando seus pulmões, coração e entranhas, volta para um outro e envia nova rajada de balas rasgando sua carne e ossos. Como eu poderia crer que Deus o libertaria? Mas se não fosse exatamente este o caso, então não existe esperança. Mas, será que é possível redimir a cultura? É possível. E a solução é simples: de dentro para fora. A partir do indivíduo para a família e daí para a comunidade, a semelhança de uma onda atingindo toda a praia.
Preste atenção nestes três personagens.
Rafael é aquele que comete os mais absurdos e abusados atos contra tudo e contra todos. Não respeita nem se importa com quem quer que seja. Jamais esconde suas ações, pelo contrário, orgulha-se delas como um troféu da sua rebeldia. É ingrato, irreverente, desafeiçoado, vil e mesquinho. Então vem Deus. E esse degenerado seguro de si e escandaloso começa a refletir sobre seu comportamento. Como resultado, ele continua a errar, mas agora já sente que essa incontrolável e invencível vontade de pecar é sua pior e mais terrível condição. Ele consegue detectar seu lado escuro da alma e se enche de temor.
João é uma pessoa de seu tempo. É amigo bom, respeitável e útil, talvez mesmo de bom coração. Mas não tem tempo para Deus e nem se interessa por Ele, ou pelo menos não tem o menor propósito de conhecer a Sua vontade. Talvez não se oponha ao sentimento religioso, nem a uma atmosfera devocional, nem a ocasiões festivas de natureza religiosa, particularmente se elas não o embaraçarem de continuar sua vida egocêntrica. Então Deus entra em ação, e esse homem amante dos prazeres do mundo, seguro de si mesmo, começa a sentir-se como que a naufragar ou afogar-se em seu próprio sangue. Sente agora que seu mundanismo é a maldição de sua vida. Mas, ao mesmo tempo, percebe que ama o mundo e as coisas que o mundo pode oferecer, e teme e odeia esse Deus que perturba seu principal divertimento.
Francisco é um homem religioso. Vive sua religião de forma intensa, emocional e exaltada. É um intelectual que se preocupa com o conhecimento e com o caráter. Ele sente que alcançou um degrau a mais, que encontrou uma forma adequada de conduta aprovada por Deus. Jamais pessoa alguma se sentiu mais satisfeita consigo mesma. Seguro de si manobra o próprio Deus para satisfazer-lhe a piedade. Então Deus entra em ação, e perturba todas as coisas. Surpreendido, ele descobre que religião e Deus não são a mesma coisa. A partir daí ele observa que a sua religião nunca lidou ainda com Deus, mas apenas com o seu ego. Pela primeira vez ele descobre que Deus não está interessado pela sua religião, mas sim pelo seu coração e sua vontade. Até essa época não havia pensado em ter um relacionamento com Deus.
De certa forma todos nós nos identificamos com eles. Um deles sou eu, em menor ou maior grau. Qual será? Embora a humanidade teime em percorrer caminhos alternativos, colocando-se no lugar do Criador, ela nunca promoverá uma real transformação. Será um engodo, uma falsificação grosseira da original. Somente Deus é capaz de criar dentro do homem um inescapável reconhecimento do fato de estar ele em conflito com a vontade divina. Por causa de seu imenso amor, Deus nos concedeu o seu melhor, no nosso estado pior.
Lembrei-me agora de um experimento em que o grande cientista Issac Newton quase perdeu a visão. Fitando a imagem do sol refletida num espelho, o brilho provocou-lhe queimadura na retina, sofrendo cegueira temporária. Mesmo permanecendo três longos dias num ambiente escuro, ainda assim o ponto brilhante não apagava de sua vista. “Empreguei todos os meios para afastar meu pensamento do sol”, escreveu, “mas, era-me impossível desvencilhar-me de sua luz”.
O experimento de Newton representou para mim uma parábola para ilustrar o que ocorrera com Rafael, João e Francisco. Após um encontro com Deus, a plena força do sol, sofreu uma invasão de luz que ficou impressa para todo o sempre em suas almas. Era impossível se desvencilhar. Com o brilho do seu amor, Deus derrete os grilhões que nos mantinham cativos. Leva um a um de nós a nos atirarmos diretamente nos seus braços abertos de amor. É essa nova experiência do amor de Deus que coloca o homem na posição certa e exata para com a vida e o capacita a voltar-se para Ele.
E assim acontece a bondade...
Como num filme, cenas de guerras, revoluções, injustiças, terrorismos, atrocidades, chacinas, violência, seqüestros e assassinatos estão impregnados em nossa alma. Convivemos com a maldade humana desde que nascemos. O primeiro choro do bebê já é um prenúncio de que há algo errado conosco e com o mundo. Por que ao invés do choro não há o sorriso?
Refletindo sobre a revolução comunista e as tragédias que se abateram sobre a Rússia, Solzhenitsyn escreveu:
“Passei quase cinqüenta anos pesquisando a história de nossa revolução. Li centenas de livros, coletei centenas de depoimentos e contribui com oito volumes de minha autoria para a iniciativa de remover as ruínas dessa levante. Mas se hoje me pedissem para formular da forma mais concisa possível a causa da desastrosa revolução que ceifou a vida de sessenta milhões de pessoas, eu não poderia ser mais preciso ao repetir: Os homens se esqueceram de Deus; daí a razão de tudo isso ter acontecido”.
Hoje, nas praças de Moscou, longas filas se formam a um simples aviso de distribuição do Novo Testamento. A história mostra o que os homens não querem reconhecer: precisamos de Deus. Pascal, um grande matemático e cientista do passado, disse: “É inútil, homem, buscares dentro de ti mesmo a cura para as tuas misérias. Todo o conhecimento que obtiveres só servirá para mostrar-te que não é em ti mesmo que encontrarás a verdade e o sumo bem”.
Um homem entra numa loja onde um grupo de pessoas se diverte, descarrega uma arma em um deles, despedaçando seus pulmões, coração e entranhas, volta para um outro e envia nova rajada de balas rasgando sua carne e ossos. Como eu poderia crer que Deus o libertaria? Mas se não fosse exatamente este o caso, então não existe esperança. Mas, será que é possível redimir a cultura? É possível. E a solução é simples: de dentro para fora. A partir do indivíduo para a família e daí para a comunidade, a semelhança de uma onda atingindo toda a praia.
Preste atenção nestes três personagens.
Rafael é aquele que comete os mais absurdos e abusados atos contra tudo e contra todos. Não respeita nem se importa com quem quer que seja. Jamais esconde suas ações, pelo contrário, orgulha-se delas como um troféu da sua rebeldia. É ingrato, irreverente, desafeiçoado, vil e mesquinho. Então vem Deus. E esse degenerado seguro de si e escandaloso começa a refletir sobre seu comportamento. Como resultado, ele continua a errar, mas agora já sente que essa incontrolável e invencível vontade de pecar é sua pior e mais terrível condição. Ele consegue detectar seu lado escuro da alma e se enche de temor.
João é uma pessoa de seu tempo. É amigo bom, respeitável e útil, talvez mesmo de bom coração. Mas não tem tempo para Deus e nem se interessa por Ele, ou pelo menos não tem o menor propósito de conhecer a Sua vontade. Talvez não se oponha ao sentimento religioso, nem a uma atmosfera devocional, nem a ocasiões festivas de natureza religiosa, particularmente se elas não o embaraçarem de continuar sua vida egocêntrica. Então Deus entra em ação, e esse homem amante dos prazeres do mundo, seguro de si mesmo, começa a sentir-se como que a naufragar ou afogar-se em seu próprio sangue. Sente agora que seu mundanismo é a maldição de sua vida. Mas, ao mesmo tempo, percebe que ama o mundo e as coisas que o mundo pode oferecer, e teme e odeia esse Deus que perturba seu principal divertimento.
Francisco é um homem religioso. Vive sua religião de forma intensa, emocional e exaltada. É um intelectual que se preocupa com o conhecimento e com o caráter. Ele sente que alcançou um degrau a mais, que encontrou uma forma adequada de conduta aprovada por Deus. Jamais pessoa alguma se sentiu mais satisfeita consigo mesma. Seguro de si manobra o próprio Deus para satisfazer-lhe a piedade. Então Deus entra em ação, e perturba todas as coisas. Surpreendido, ele descobre que religião e Deus não são a mesma coisa. A partir daí ele observa que a sua religião nunca lidou ainda com Deus, mas apenas com o seu ego. Pela primeira vez ele descobre que Deus não está interessado pela sua religião, mas sim pelo seu coração e sua vontade. Até essa época não havia pensado em ter um relacionamento com Deus.
De certa forma todos nós nos identificamos com eles. Um deles sou eu, em menor ou maior grau. Qual será? Embora a humanidade teime em percorrer caminhos alternativos, colocando-se no lugar do Criador, ela nunca promoverá uma real transformação. Será um engodo, uma falsificação grosseira da original. Somente Deus é capaz de criar dentro do homem um inescapável reconhecimento do fato de estar ele em conflito com a vontade divina. Por causa de seu imenso amor, Deus nos concedeu o seu melhor, no nosso estado pior.
Lembrei-me agora de um experimento em que o grande cientista Issac Newton quase perdeu a visão. Fitando a imagem do sol refletida num espelho, o brilho provocou-lhe queimadura na retina, sofrendo cegueira temporária. Mesmo permanecendo três longos dias num ambiente escuro, ainda assim o ponto brilhante não apagava de sua vista. “Empreguei todos os meios para afastar meu pensamento do sol”, escreveu, “mas, era-me impossível desvencilhar-me de sua luz”.
O experimento de Newton representou para mim uma parábola para ilustrar o que ocorrera com Rafael, João e Francisco. Após um encontro com Deus, a plena força do sol, sofreu uma invasão de luz que ficou impressa para todo o sempre em suas almas. Era impossível se desvencilhar. Com o brilho do seu amor, Deus derrete os grilhões que nos mantinham cativos. Leva um a um de nós a nos atirarmos diretamente nos seus braços abertos de amor. É essa nova experiência do amor de Deus que coloca o homem na posição certa e exata para com a vida e o capacita a voltar-se para Ele.
E assim acontece a bondade...
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