terça-feira, 3 de abril de 2012

QUANDO TORNAMOS AS BÊNÇÃOS DE DEUS EM ALGO COMUM - Malaquias 1:1,2

Malaquias, que significa “meu mensageiro”, foi o último profeta de Deus do VT. Ele foi boca de Deus para um remanescente ingrato, rebelde e desanimado, apesar das bênçãos grandiosas de Deus: reconstrução do templo com Esdras, reconstrução dos muros com Neemias e retorno a Jerusalém após o exílio. Eles perderam a capacidade de se maravilhar diante das intervenções de Deus, cultivando um espírito acomodado e cínico. Os seis questionamentos (queixas) do povo para com Deus demonstram este espírito. Quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, incorremos em graves distorções da fé. Vejamos. Primeiro, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, desprezamos o seu inigualável amor (1:1,2). Deus relembra ao seu povo sua graciosa eleição, fruto de seu inigualável amor. Inigualável por ser incondicional. Deus ama aqueles que por natureza eram objetos de seu desagrado. Inigualável por ser invencível. Deus ama “até o fim” (Jo 31.1). Inigualável por ser sacrificial. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito. Mas, a despeito do grande amor de Deus, o povo nutria um sentimento de desprezo e ingratidão: “Em quê tem nos amado?”. Segundo, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, oferecemos o pior (1:6-8). Deus esperava ser honrado, contudo, os sacerdotes e o povo ofereciam o pior. À semelhança de um pai ou de um senhor de escravos que recebiam a honra de seu filho ou de seus súditos, Deus esperava ser honrado pelo seu povo, mas obteve o desprezo pela qualidade de suas ofertas. Os animais ofertados eram cegos, coxos e enfermos, contrariando a lei. Eram ofertas indignas até para serem oferecidas a um governante terreno (v 8). E o mais lamentável dessa atitude é que poderiam oferecer o melhor, mas não o faziam (v 14). Para Deus, seria melhor fechar as portas do templo do que ofendê-lo com tais ofertas (v 10). Devemos refletir sobre como tem sido nosso culto oferecido a Deus... Será que Cristo tem de fato recebido a primazia? (Cl 1:18). Terceiro, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, invejamos a prosperidade dos perversos (2:17). O povo estava se comportando como Asafe se comportou no passado (Sl 73:3). “Eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos”. A prosperidade dos povos ao redor era causa de inveja, queixas e murmurações contra Deus (3:15). Em outras palavras, diziam: “Deus é injusto!”. O povo não conseguia reconhecer aquilo que Asafe reconheceu: que a riqueza material é efêmera; que o fim deles pode ser trágico; que a verdadeira riqueza é Deus quem nos dá (“Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo”, disse Jesus); que a justiça verdadeira se manifesta em Cristo (3:1-6). Ele virá e julgará a terra com a espada de sua boca (v 1-3). Em sua segunda vinda, Ele exercerá seu julgamento final (4:1,2). Quarto, quando tornamos as bênçãos de Deus em algo comum, usurpamos o que lhe é de direito (3:8,9). O pior ladrão é aquele que não se reconhece como tal. O questionamento: “Em que te roubamos?”, demonstra todo o cinismo do povo em não reconhecer a desobediência e a infidelidade coletiva (v 9): “Vós me roubais, a nação toda”. Eles estavam se apropriando daquilo que não lhes pertencia: o dízimo é do Senhor! Certa feita Jesus foi argüido sobre o imposto, ao que respondeu: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Isto é, o cristão foi chamado para ser fiel em todas as esferas de atuação. Quando valorizamos a Deus e sua rica intervenção em nossas vidas, agimos como Davi (1 Cr 29): (1) Reconhecemos que tudo vem das mãos de Deus; (2) E das mãos de Deus o devolvemos.

terça-feira, 27 de março de 2012

PERDI A ESPERANÇA

De fato, perdi as esperanças. Tranqüilizem-se. A perda de esperança pode ser uma manifestação de lucidez. Às vezes, é preciso perder a esperança para voltar a viver. É ter a coragem de reconhecer que o que está morto realmente morreu, e só existe uma coisa a ser feita: enterrar. É preciso que os mortos sejam enterrados para voltar a viver. Perdi a esperança: enterrei a política oficial. Essa dos partidos, dos comícios, das carreatas, das promessas, do “tudo isso te darei se votares em mim”, que iniciará em poucos dias. Daí, antes que se iniciem, fica aqui o meu protesto. A política não é o jogo das verdades. Nela o que importa não é o ser, mas o que parece ser. Política hoje não se faz com verdade. Política hoje se faz com imagens. O negócio é o teatro. Aquele que representa melhor leva o prêmio. Aquele que engana melhor fica com o voto. Política é caçada. Políticos são caçadores que espreitam sua presa em busca de voto. O voto é o caminho para o poder. E para isso utiliza-se de táticas e técnicas refinadas para abater a presa. Põem armadilhas apetitosas, armam iscas... Será que neste bando de caçadores há alguma exceção? Quero crer que sim. Mas foi o Guimarães Rosa, mágico com as palavras, que me devolveu a alegria, quando escreveu: “O político pensa apenas em minutos, sou escritor e penso em eternidades...”. Em outras palavras, político é aquele que busca a ressurreição do poder, enquanto eu busco a ressurreição do homem. Acho que foi isso que ele quis dizer. Tranqüilizem-se as minhas ovelhas. Não estou deprimido, apesar de tantos escândalos. Estou em paz comigo mesmo. Já enterrei o defunto. Posso dedicar-me às coisas que julgo merecedoras do meu amor e trabalho: o reino de Deus. Quando uma esperança se vai, outra nasce em seu lugar. Como capim que brota sob a primeira chuva, depois da devastação da queimada...

quinta-feira, 15 de março de 2012

O ESPAÇO DA IGREJA NO MUNDO

Ultimamente, tenho ouvido com certa freqüência declarações como estas: “Precisamos de mais espaço na mídia”, “Precisamos de mais representação no Congresso Nacional”, “Precisamos de mais espaço na administração pública”. Será que estes são os espaços que a igreja precisa conquistar no mundo? Será que, ao menos, ela necessita conquistar espaços? A igreja de Jesus Cristo é o lugar no mundo onde se proclama e testemunha o senhorio de Jesus sobre o mundo todo. Logo, esse espaço da igreja não é algo que exista em função de si mesmo, mas algo que ultrapassa em muito seus próprios limites, não como uma sociedade cultual que tivesse que lutar por sua própria sobrevivência no mundo, mas como o lugar onde se testemunha a fundamentação de toda a realidade em Jesus Cristo. A igreja é o lugar onde se testemunha e se leva a sério que em Cristo Deus reconciliou consigo o mundo, que Deus amou o mundo de tal maneira que por ele deu o seu Filho. O espaço da igreja, portanto, não existe para disputar uma parte do território do mundo, tão presente hoje em declarações de disputas por estes espaços, mas para testemunhar ao mundo que ele pode ser o que é: o mundo amado e reconciliado com Deus em Jesus Cristo. A igreja somente pode defender seu espaço próprio não lutando por ele, mas pela salvação do mundo. Do contrário, a igreja transforma-se em “sociedade religiosa” que luta em causa própria, deixando assim de ser igreja de Cristo no mundo. Dessa forma, a primeira incumbência daqueles que pertencem à igreja de Jesus Cristo não é ser algo para si mesmos, criar, por exemplo, uma organização religiosa ou mesmo viver uma vida piedosa, mas ser testemunhas de Cristo para o mundo. Quero concluir, portanto, afirmando que quem quiser falar do espaço da igreja deve estar consciente de que esse espaço já nasceu rompido e superado por qualquer território que se queira “dominar” pelo testemunho da igreja a respeito de Jesus Cristo. Afinal, foi o próprio Cristo quem rompeu todas as fronteiras quando disse: “O campo é o mundo”.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

QUEM É VOCÊ NA MULTIDÃO

Todos nós estamos familiarizados com o equivocado ditado “A voz do povo é voz de Deus”. A própria história já deu mostras deste sofisma. A Alemanha já aclamou Hitler. A Itália já aplaudiu Mussolini. A Rússia já apoiou Stalin. Os chineses já endeusaram Mao Tse Tung. E vejam o triste desfecho: seis milhões de judeus mortos em campos de concentrações, toda uma população aniquilada pelo terror da guerra, assassinatos em massa para manter um regime totalitário e infame, cristãos perseguidos e mortos, igrejas incendiadas e dezenas e milhares de pessoas vítimas da fome em todo o país. A voz da multidão não é confiável. O próprio Jesus não confiava nas multidões (Jo 2:23-25). Jesus estava a caminho de Jerusalém. É a sua última semana antes da cruz. Após ser ungido para a sepultura por Maria, dirige-se resolutamente a Jerusalém. Ele tem uma missão a cumprir, e nada o desviará dela. Em seu caminho, as multidões o acompanham. Ele já traz consigo um cortejo de seguidores, mas conhece aqueles que são seus. Eles seriam atraídos a Ele após a ressurreição (v 32). É clara a intenção de João em destacar as multidões durante o seu percurso e sua entrada em Jerusalém (a palavra “multidão” ocorre 6 vezes neste relato: v 9, 12, 17, 18, 29 e 34). É também clara a sua intenção em destacar algumas classes de pessoas dentro da mesma multidão e a forma como elas se relacionavam com Jesus. Vejamos quais são elas: A primeira classe de pessoas são aqueles que não compreenderam quem Jesus era nem a natureza de seu reinado (v 12,13 e 34). Jesus entra em Jerusalém e é clamado pela multidão. Eles esperavam um messias político. Alguém que organizaria um levante popular e político, a fim de libertar a nação do jugo romano. O rei finalmente chegara, e com ele toda a expectativa de um novo tempo livre do domínio de César. Como os discípulos de Emaús, eles esperavam que fosse Jesus quem iria redimir Israel (Lc 24:21). Mas estavam errados quanto a sua pessoa. No fundo, eles não sabiam quem Jesus era (v 34). A segunda classe de pessoas que João destaca são aqueles que o buscavam apenas pelo milagre (v 18). Dentre a multidão, estavam aqueles que presenciaram o grande milagre da ressurreição de Lázaro (v 17). Através de seu testemunho, muitos saíram ao encontro de Cristo em busca do milagre. Esta classe de pessoas representa aqueles que desejam apenas o benefício, a cura, o livramento e a supressão se seus desejos e necessidades. São como os que buscaram a Jesus somente por causa do pão, após o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6:26). A terceira classe de pessoas são aqueles que o buscavam por curiosidade (v 20,21). Os gregos (gentios) certamente ouviram falar de Jesus, de suas curas e de seu ensino transformador. Desejosos de conhecê-Lo foram até Filipe, que era da Galileu. Estavam curiosos sobre o homem que detinha um ensino tão original e um poder tão grande de atração nas pessoas. Certamente, há também muitos curiosos em todos os lugares, até na igreja. Não são poucos aqueles que desejam apenas aplacar a sua curiosidade com respeito a Cristo e a igreja. A quarta classe de pessoas são aqueles que experimentaram a intervenção poderosa de Cristo, mas permaneceram incrédulos (v 37). A luz brilhou de forma intensa, mas não resplandeceu nos corações empedernidos (v 35, 36). Embora muitos tivessem presenciado sinais e maravilhas, não creram em Cristo para sua salvação. De modo geral, não é o milagre que produz a fé, mas a fé é que produz o milagre. Judas experimentou como testemunha ocular todos os milagres espantosos e pronunciamentos maravilhosos de Jesus, embora permanecesse com o coração endurecido. A quinta classe de pessoas descrita por João são aqueles que creram em Jesus, mas ocultaram a sua fé (v 42,43). Várias autoridades do povo e pessoas importantes creram em Jesus, mas por causa dos cuidados e respeitos humanos mantiveram-se em silêncio. Esses são aqueles que ocultam a sua fé por receio de perder a influência, a posição, o status, a “glória dos homens”. São representados por aqueles que amam mais o que conquistaram do que Aquele que os conquistou. José de Arimatéia e Nicodemus eram um exemplo desse tipo de gente. João declara que José de Arimatéia era discípulo de Jesus, “ainda que ocultamente pelo medo dos judeus” (Jo 19:38). E o que dizer de Nicodemus? Foi ter com Jesus de noite, com medo de ser visto e ter a sua reputação maculada perante os religiosos de sua época (Jo 3:2). Afinal, quem é você no meio da multidão? A qual classe de pessoas você pertence? Aqueles que pensam que Jesus foi apenas um grande líder revolucionário? Aqueles que o buscam apenas pelo benefício que Ele pode lhes conceder? Aqueles que, por curiosidade, pulam de um lado para o outro em busca de novidades? Aqueles que experimentaram sua doce presença, mas continuam andando na direção oposta? Aqueles que escondem a sua fé por receio de perder o que, enganadamente, pensam que conquistaram? A sexta e última classe de pessoas são descritas pelo próprio Cristo (v 44-50): 1. São aquelas que crêem que Jesus é Deus e não um messias político (v 44,45). 2. São aquelas que crêem que Ele é a revelação final e perfeita da verdade de Deus (v 46). 3. São aquelas que ouvem e praticam a sua Palavra (v 47-50). São estes que serão destacados não pelos homens, mas por Deus; que serão honrados não por homens, mas por Deus; que receberão o prêmio não das mãos dos homens, mas das mãos de Deus, em meio à multidão.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO

O início de uma vida nova, com mais dinheiro, saúde, qualidade de vida e felicidade parece uma realidade palpável para muita gente na noite da virada do ano. Enquanto os fogos pipocam o céu, várias promessas são feitas, acompanhadas de superstições que beiram a insanidade. Mas, poucas dessas promessas sobrevivem ao dia seguinte. A razão para isso vai desde a falta de perseverança até querer realmente o que se propõe. É necessária uma profunda reflexão sobre o que se almeja para não se apagar como os fogos de artifício da virada. As resoluções mais confiáveis encontram-se na Palavra de Deus, pois ela é a vontade de Deus para o homem. Resolver fazer a vontade de Deus, certamente nos conduzirá a lugares seguros, prazerosos e, acima de tudo, mais próximos de Deus – que é a fonte de toda alegria e realização humana. Neste primeiro dia do ano quero extrair de quatro personagens bíblicos quatro resoluções acertadas que tomaram e mudaram as suas vidas para sempre. Bem que poderiam ser as nossas a partir de hoje. Vejamos. A primeira resolução foi tomada por um profeta: “Resolveu Daniel firmemente não se contaminar” (Dn 1:8), foi sua decisão. Diante de finos manjares oferecidos por um rei idólatra e tirano, ele resolveu não participar do banquete, preferindo uma dieta mais leve. Ele decidiu ser diferente para a glória de Deus. Eis a primeira resolução que tomo neste início de ano: EU RESOLVO BUSCAR UMA VIDA DE SANTIFICAÇÃO PARA A GLÓRIA DE DEUS. A santificação é a principal evidência do novo nascimento promovido pelo Espírito Santo. Ela é um processo que envolve duas partes: Deus e eu. É sinérgico na medida em que Cristo persevera em mim e eu me esforço para me tornar como Ele. Contudo, a santificação é um processo que dura a vida inteira, e sem ela ninguém verá a Deus. A segunda resolução foi tomada por um rico cobrador de impostos: “Eu resolvo dar metade dos meus bens aos pobres” (Lc 19:8). Ao se oferecer para ficar em sua casa, Jesus conquistou o avarento e corrupto Zaquel. E quando somos conquistados por Cristo, abrimos mão de nossas conquistas pessoais, porquanto possuímos agora a pérola de maior valor. Foi isso que ele fez. Resolveu dar metade de seus bens aos pobres e restituiu quatro vezes mais àqueles os quais defraudou. Eis a segunda resolução de ano novo: EU RESOLVO SER MAIS GENEROSO COM OS MEUS DONS PARA A GLÓRIA DE DEUS. A generosidade é uma das principais marcas do cristão. É só dar uma olhada na igreja primitiva para vislumbrar a graça do oferecimento (Atos 2:42-47). A generosidade é o amor em ação. É o custeio daquilo que está no coração, à semelhança do samaritano que não apenas resgata o moribundo, mas custeia as suas despesas com o tratamento (Lc 11:35). A generosidade mede o nosso envolvimento com o Reino de Deus, nem mais, nem menos. A terceira resolução provém de um rei: “E depois disso, resolveu Joás renovar a Casa do Senhor” (2Cr 24.4). Após um período de apostasia, lutas pelo poder e morte, Joás irrompe como um grande paladino para reconstruir o altar e o culto a Deus perante o povo. Eis a terceira resolução de ano novo: EU RESOLVO ME COMPROMETER MAIS COM A OBRA DO SENHOR. O profeta Ageu denunciou o descaso de uma nação para com o “templo”, enquanto concentravam-se em suas próprias casas, não muito diferente do que encontramos na sociedade hodierna. Ao contrário de Esdras, Neemias e Salomão que iniciaram pela Casa do Senhor, teimamos em iniciar pela nossa própria casa, enquanto a obra do Senhor padece de trabalhadores. A última resolução advém de uma viúva estrangeira: “Rute estava de todo resolvida em ir com Noemi” (Rt 1:18). Mesmo não tendo nenhum vínculo legal com a sogra, já que o marido morrera e ela não tinha mais filhos, Rute resolveu se aliançar com ela em uma das mais belas declarações de amor e amizade narradas na Bíblia. Eis a minha última resolução de ano novo: EU RESOLVO ME COMPROMETER MAIS COM AS PESSOAS. Relacionar-me mais com elas. Procurar servi-las naquilo que estiver ao meu alcance. Dedicar-me um pouco mais aos outros e menos a mim mesmo, respirando e tentando sorver as palavras de um jovem pastor da Alemanha nazista sobre Jesus: “Jesus foi um homem para os outros”. E que Deus me ajude para que estas resoluções não se apaguem como os fogos da virada...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O NATAL QUE EU NÃO CONHECI A história do primeiro Natal O Natal está às portas, e com ele um movimento esperado: presentes, enfeites, festas, cartões, árvores, Papai Noel, entre outros. Ao contrário do que a sociedade gostaria que crêssemos, o primeiro Natal contrasta com esta realidade. Por isso, ao se aproximar o Natal, convido-o a afastar-se da ilusão dos cartões e das vitrines, indo para a sua verdadeira história. Há nela alguns acontecimentos que muitos desconhecem. A ANUNCIAÇÃO: Ao invés de famílias tranqüilas e felizes, o evangelho de Lucas registra que Maria, ao receber a visita do anjo, anunciando sua concepção sobrenatural, teve medo (Lc 1:28-38): “Como será isto, pois não tenho relação com homem algum” (Lc 1:34). As implicações e as conseqüências deste fato eram terríveis. O adultério era passível de morte por apedrejamento. E seus pais, o que diriam? Será que creriam em sua história? E o seu noivo, José? Será que lhe daria crédito? Parece que inicialmente não creu, pois a deixou secretamente (Mt 1:19). Lá estava ela, uma adolescente sozinha, desamparada, abandonada pelo noivo, procurando refúgio na única pessoa que poderia compreendê-la, Isabel. Mas o que mais me chama a atenção em Maria é que diante de todas as implicações ela não se acovardou, e respondeu: “Aqui está a serva do Senhor, que se cumpra em mim conforme a tua Palavra” (Lc 1:38). Com grande freqüência, uma obra de Deus vem sempre acompanhada de dois gumes: grande alegria e grande sofrimento. Nesta resposta, Maria abraçou os dois, sendo a primeira pessoa a aceitar Jesus com todas as suas implicações. O NASCIMENTO: A vinda de Jesus ao mundo segue as mesmas dificuldades e sobressaltos: o recenseamento, a viagem árdua de Nazaré a Belém, a falta de acomodações próprias, e por fim, um estábulo improvisado (Lc 2:1-7). Naquele lugar tão diferente das atuais maternidades, nasce o Rei, tendo por cama uma manjedoura, local onde se colocavam alimento para os animais. O que uma jovem adolescente poderia pensar diante desse quadro: “Que salvador será este? Que rei vem ao mundo desta maneira? Como poderá herdar o trono de Davi se o que ele tem é apenas uma manjedoura suja e improvisada? Será que tudo isso não passou de um sonho?” Mas, aquilo que aos olhos humanos ainda era obscuro, Deus declarou em plena luz nos campos: a glória de Deus brilhou aos pastores (Lc 2:18-14) e ao firmamento, guiando os magos do oriente até o menino (Mt 2:1-12). Ao receber presentes da realeza (ouro, incenso e mirra), penso que Maria deve ter se perguntado: “Quem é este menino verdadeiramente?”. A MATANÇA DOS INOCENTES: Engraçado, nunca vi em um cartão de Natal nem em uma vitrine a descrição deste ato insano e terrorista patrocinado pelo Estado! Mas ele também faz parte do primeiro Natal. Herodes, sentindo-se ameaçado pelo nascimento de um rei, reagiu como de costume: ordenou que assassinassem todas as crianças de dois anos para baixo (Lc 2:16-18). E assim, Jesus entrou no mundo, no meio da disputa e do terror, indo passar a sua infância escondido no Egito, como um terrorista refugiado numa nação que trazia lembranças tão amargas (Mt 2:13-15). Logo após a morte de Herodes, um anjo ordena a José que retorne a Galiléia. Finalmente, eles poderiam ter um pouco de paz e tranqüilidade para criar o seu filho Jesus (Mt 2:19-23). REVELANDO A DEUS: Se Jesus veio revelar Deus ao mundo, então o que eu aprendo acerca de Deus neste primeiro Natal? A primeira lição é a humildade. Ao contrário do deus vingativo e insano de algumas religiões, Deus se humilhou em sua busca desesperada pela restauração do homem, corrompido pelo pecado. A segunda lição é a proximidade. Em Jesus, Deus nos deu um rosto. Ele tornou-se acessível a todos os que o buscam. Agora sabemos que Deus não está distante, mas ao alcance e bem próximo de todos nós. A terceira lição é o esvaziamento. Há um poema que traduz bem esta realidade: O Deus de poder, enquanto percorria, em suas majestosas roupagens de glória, resolveu parar; e assim um dia Ele desceu, e pelo caminho se despia. Ele se esvaziou de sua glória para absorver o nosso pecado na cruz, reconciliando-nos com o Pai... Seria bom se o mundo conhecesse a verdadeira história do primeiro Natal.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

AS INFIDELIDADES CRISTÃS AO CRISTIANISMO





As infidelidades ocorreram e, de certo modo, sempre ocorrerão no meio da cristandade. Elas são individuais ou coletivas e, apesar de incontáveis, difíceis de determinar. Representam desvios, em certo sentido estruturais, que constituíram afastamentos da fé ou das exigências dogmáticas e morais.
No começo do cristianismo já se observam desvios surpreendentes: a resistência dos judeus em aceitar Jesus como o Messias, a resistência à universalidade da mensagem do evangelho para além do “povo eleito”, a expectativa de um Messias político, a introdução dos conceitos filosóficos helênicos na fé, a busca do martírio como excesso de zelo ou desejo de perfeição, o aproveitamento pela igreja de certas estruturas políticas com uma aproximação perigosa aos poderes seculares, dentre outros. À medida que a igreja vai se consolidando, as tentações multiplicam. Vejamos.
Como instituição consolidada, a igreja começa a ter importância não só religiosa, mas, em certa medida, temporal: poder, riqueza, influência e interesses pessoais se assomam. As discussões teológicas, quando existem, se deixam influenciar por motivos que não são o respeito ao sentido justo da revelação. Há rivalidades, formação de grupos afins, vinculados a denominações, comunidades sociais ou tradições culturais, enfim, a vaidades pessoais. As soberbas humanas, desde o cisma entre Roma e Constantinopla, tomaram o centro do palco, transformando o cristianismo em uma imposição como um poder temporal. Estas atitudes, que levaram às guerras de religião, foram impetradas tanto por católicos quanto por protestantes. As conexões temporais, políticas ou de outro tipo que queiram chamar, foram decisivas nas guerras que tomaram a religião cristã como pretexto. O odium theologucum foi freqüente. As discussões foram muitas vezes mais partidárias do que intelectuais. É incalculável o dano que isso causou ao cristianismo, e que ainda tem causado.
Há outras formas mais modernas de infidelidade ao cristianismo. A “aversão” ao mundo, ou ao humano, tem sido uma recorrente tentação. O pretexto parece ser o mesmo: o rigor ascético, como se a criação de Deus fosse agora eleita como inimigo. Com isso, a igreja perde sua capacidade de ser “sal da terra e luz do mundo”, além de criar sub-culturas cristãs herméticas e preconceituosas. A perigosa aproximação aos poderes seculares e políticos parece-nos ser outra tentação. Ela é inquietante em dois sentidos: o primeiro, o servir-se deles em benefício de uma tendência ou interesse particular; o outro, depender desses poderes, ou seja, deixar-se utilizar ou manipular por eles. Não é isso que temos visto? Não há em nossos dias uma aproximação perigosa com estes “poderes”, utilizando-se de uma infundada desculpa de fazer avançar o reino de Deus? O que muitos destes querem é fazer avançar o seu império pessoal...
Contudo, a infidelidade mais grave que postulo talvez seja a que tem maior atualidade em nosso tempo: o esquecimento da outra vida. Para muitos, e por que não dizer para a grande maioria, hoje o mundo atual é o único horizonte possível. Como conseqüência de vários fatores, se foi dissipando a referência à vida eterna, a projeção para uma vida além da que existe. Com isso, essa situação reduziu Deus a uma simples referência nominal na qual mal se pensa. E quando se pensa, pensa-se para saciar a condição atual, esvaziando o cristianismo de um de seus mais sublimes e principais conteúdos. Esta é a situação de grande número de pessoas que se consideram cristãs: católicas, ortodoxas ou protestantes. Para elas, o céu é o limite, conquanto devesse ser o destino. Estas são, por enquanto, algumas infidelidades ao cristianismo que observo.