quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO

O início de uma vida nova, com mais dinheiro, saúde, qualidade de vida e felicidade parece uma realidade palpável para muita gente na noite da virada do ano. Enquanto os fogos pipocam o céu, várias promessas são feitas, acompanhadas de superstições que beiram a insanidade. Mas, poucas dessas promessas sobrevivem ao dia seguinte. A razão para isso vai desde a falta de perseverança até querer realmente o que se propõe. É necessária uma profunda reflexão sobre o que se almeja para não se apagar como os fogos de artifício da virada. As resoluções mais confiáveis encontram-se na Palavra de Deus, pois ela é a vontade de Deus para o homem. Resolver fazer a vontade de Deus, certamente nos conduzirá a lugares seguros, prazerosos e, acima de tudo, mais próximos de Deus – que é a fonte de toda alegria e realização humana. Neste primeiro dia do ano quero extrair de quatro personagens bíblicos quatro resoluções acertadas que tomaram e mudaram as suas vidas para sempre. Bem que poderiam ser as nossas a partir de hoje. Vejamos. A primeira resolução foi tomada por um profeta: “Resolveu Daniel firmemente não se contaminar” (Dn 1:8), foi sua decisão. Diante de finos manjares oferecidos por um rei idólatra e tirano, ele resolveu não participar do banquete, preferindo uma dieta mais leve. Ele decidiu ser diferente para a glória de Deus. Eis a primeira resolução que tomo neste início de ano: EU RESOLVO BUSCAR UMA VIDA DE SANTIFICAÇÃO PARA A GLÓRIA DE DEUS. A santificação é a principal evidência do novo nascimento promovido pelo Espírito Santo. Ela é um processo que envolve duas partes: Deus e eu. É sinérgico na medida em que Cristo persevera em mim e eu me esforço para me tornar como Ele. Contudo, a santificação é um processo que dura a vida inteira, e sem ela ninguém verá a Deus. A segunda resolução foi tomada por um rico cobrador de impostos: “Eu resolvo dar metade dos meus bens aos pobres” (Lc 19:8). Ao se oferecer para ficar em sua casa, Jesus conquistou o avarento e corrupto Zaquel. E quando somos conquistados por Cristo, abrimos mão de nossas conquistas pessoais, porquanto possuímos agora a pérola de maior valor. Foi isso que ele fez. Resolveu dar metade de seus bens aos pobres e restituiu quatro vezes mais àqueles os quais defraudou. Eis a segunda resolução de ano novo: EU RESOLVO SER MAIS GENEROSO COM OS MEUS DONS PARA A GLÓRIA DE DEUS. A generosidade é uma das principais marcas do cristão. É só dar uma olhada na igreja primitiva para vislumbrar a graça do oferecimento (Atos 2:42-47). A generosidade é o amor em ação. É o custeio daquilo que está no coração, à semelhança do samaritano que não apenas resgata o moribundo, mas custeia as suas despesas com o tratamento (Lc 11:35). A generosidade mede o nosso envolvimento com o Reino de Deus, nem mais, nem menos. A terceira resolução provém de um rei: “E depois disso, resolveu Joás renovar a Casa do Senhor” (2Cr 24.4). Após um período de apostasia, lutas pelo poder e morte, Joás irrompe como um grande paladino para reconstruir o altar e o culto a Deus perante o povo. Eis a terceira resolução de ano novo: EU RESOLVO ME COMPROMETER MAIS COM A OBRA DO SENHOR. O profeta Ageu denunciou o descaso de uma nação para com o “templo”, enquanto concentravam-se em suas próprias casas, não muito diferente do que encontramos na sociedade hodierna. Ao contrário de Esdras, Neemias e Salomão que iniciaram pela Casa do Senhor, teimamos em iniciar pela nossa própria casa, enquanto a obra do Senhor padece de trabalhadores. A última resolução advém de uma viúva estrangeira: “Rute estava de todo resolvida em ir com Noemi” (Rt 1:18). Mesmo não tendo nenhum vínculo legal com a sogra, já que o marido morrera e ela não tinha mais filhos, Rute resolveu se aliançar com ela em uma das mais belas declarações de amor e amizade narradas na Bíblia. Eis a minha última resolução de ano novo: EU RESOLVO ME COMPROMETER MAIS COM AS PESSOAS. Relacionar-me mais com elas. Procurar servi-las naquilo que estiver ao meu alcance. Dedicar-me um pouco mais aos outros e menos a mim mesmo, respirando e tentando sorver as palavras de um jovem pastor da Alemanha nazista sobre Jesus: “Jesus foi um homem para os outros”. E que Deus me ajude para que estas resoluções não se apaguem como os fogos da virada...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O NATAL QUE EU NÃO CONHECI A história do primeiro Natal O Natal está às portas, e com ele um movimento esperado: presentes, enfeites, festas, cartões, árvores, Papai Noel, entre outros. Ao contrário do que a sociedade gostaria que crêssemos, o primeiro Natal contrasta com esta realidade. Por isso, ao se aproximar o Natal, convido-o a afastar-se da ilusão dos cartões e das vitrines, indo para a sua verdadeira história. Há nela alguns acontecimentos que muitos desconhecem. A ANUNCIAÇÃO: Ao invés de famílias tranqüilas e felizes, o evangelho de Lucas registra que Maria, ao receber a visita do anjo, anunciando sua concepção sobrenatural, teve medo (Lc 1:28-38): “Como será isto, pois não tenho relação com homem algum” (Lc 1:34). As implicações e as conseqüências deste fato eram terríveis. O adultério era passível de morte por apedrejamento. E seus pais, o que diriam? Será que creriam em sua história? E o seu noivo, José? Será que lhe daria crédito? Parece que inicialmente não creu, pois a deixou secretamente (Mt 1:19). Lá estava ela, uma adolescente sozinha, desamparada, abandonada pelo noivo, procurando refúgio na única pessoa que poderia compreendê-la, Isabel. Mas o que mais me chama a atenção em Maria é que diante de todas as implicações ela não se acovardou, e respondeu: “Aqui está a serva do Senhor, que se cumpra em mim conforme a tua Palavra” (Lc 1:38). Com grande freqüência, uma obra de Deus vem sempre acompanhada de dois gumes: grande alegria e grande sofrimento. Nesta resposta, Maria abraçou os dois, sendo a primeira pessoa a aceitar Jesus com todas as suas implicações. O NASCIMENTO: A vinda de Jesus ao mundo segue as mesmas dificuldades e sobressaltos: o recenseamento, a viagem árdua de Nazaré a Belém, a falta de acomodações próprias, e por fim, um estábulo improvisado (Lc 2:1-7). Naquele lugar tão diferente das atuais maternidades, nasce o Rei, tendo por cama uma manjedoura, local onde se colocavam alimento para os animais. O que uma jovem adolescente poderia pensar diante desse quadro: “Que salvador será este? Que rei vem ao mundo desta maneira? Como poderá herdar o trono de Davi se o que ele tem é apenas uma manjedoura suja e improvisada? Será que tudo isso não passou de um sonho?” Mas, aquilo que aos olhos humanos ainda era obscuro, Deus declarou em plena luz nos campos: a glória de Deus brilhou aos pastores (Lc 2:18-14) e ao firmamento, guiando os magos do oriente até o menino (Mt 2:1-12). Ao receber presentes da realeza (ouro, incenso e mirra), penso que Maria deve ter se perguntado: “Quem é este menino verdadeiramente?”. A MATANÇA DOS INOCENTES: Engraçado, nunca vi em um cartão de Natal nem em uma vitrine a descrição deste ato insano e terrorista patrocinado pelo Estado! Mas ele também faz parte do primeiro Natal. Herodes, sentindo-se ameaçado pelo nascimento de um rei, reagiu como de costume: ordenou que assassinassem todas as crianças de dois anos para baixo (Lc 2:16-18). E assim, Jesus entrou no mundo, no meio da disputa e do terror, indo passar a sua infância escondido no Egito, como um terrorista refugiado numa nação que trazia lembranças tão amargas (Mt 2:13-15). Logo após a morte de Herodes, um anjo ordena a José que retorne a Galiléia. Finalmente, eles poderiam ter um pouco de paz e tranqüilidade para criar o seu filho Jesus (Mt 2:19-23). REVELANDO A DEUS: Se Jesus veio revelar Deus ao mundo, então o que eu aprendo acerca de Deus neste primeiro Natal? A primeira lição é a humildade. Ao contrário do deus vingativo e insano de algumas religiões, Deus se humilhou em sua busca desesperada pela restauração do homem, corrompido pelo pecado. A segunda lição é a proximidade. Em Jesus, Deus nos deu um rosto. Ele tornou-se acessível a todos os que o buscam. Agora sabemos que Deus não está distante, mas ao alcance e bem próximo de todos nós. A terceira lição é o esvaziamento. Há um poema que traduz bem esta realidade: O Deus de poder, enquanto percorria, em suas majestosas roupagens de glória, resolveu parar; e assim um dia Ele desceu, e pelo caminho se despia. Ele se esvaziou de sua glória para absorver o nosso pecado na cruz, reconciliando-nos com o Pai... Seria bom se o mundo conhecesse a verdadeira história do primeiro Natal.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

AS INFIDELIDADES CRISTÃS AO CRISTIANISMO





As infidelidades ocorreram e, de certo modo, sempre ocorrerão no meio da cristandade. Elas são individuais ou coletivas e, apesar de incontáveis, difíceis de determinar. Representam desvios, em certo sentido estruturais, que constituíram afastamentos da fé ou das exigências dogmáticas e morais.
No começo do cristianismo já se observam desvios surpreendentes: a resistência dos judeus em aceitar Jesus como o Messias, a resistência à universalidade da mensagem do evangelho para além do “povo eleito”, a expectativa de um Messias político, a introdução dos conceitos filosóficos helênicos na fé, a busca do martírio como excesso de zelo ou desejo de perfeição, o aproveitamento pela igreja de certas estruturas políticas com uma aproximação perigosa aos poderes seculares, dentre outros. À medida que a igreja vai se consolidando, as tentações multiplicam. Vejamos.
Como instituição consolidada, a igreja começa a ter importância não só religiosa, mas, em certa medida, temporal: poder, riqueza, influência e interesses pessoais se assomam. As discussões teológicas, quando existem, se deixam influenciar por motivos que não são o respeito ao sentido justo da revelação. Há rivalidades, formação de grupos afins, vinculados a denominações, comunidades sociais ou tradições culturais, enfim, a vaidades pessoais. As soberbas humanas, desde o cisma entre Roma e Constantinopla, tomaram o centro do palco, transformando o cristianismo em uma imposição como um poder temporal. Estas atitudes, que levaram às guerras de religião, foram impetradas tanto por católicos quanto por protestantes. As conexões temporais, políticas ou de outro tipo que queiram chamar, foram decisivas nas guerras que tomaram a religião cristã como pretexto. O odium theologucum foi freqüente. As discussões foram muitas vezes mais partidárias do que intelectuais. É incalculável o dano que isso causou ao cristianismo, e que ainda tem causado.
Há outras formas mais modernas de infidelidade ao cristianismo. A “aversão” ao mundo, ou ao humano, tem sido uma recorrente tentação. O pretexto parece ser o mesmo: o rigor ascético, como se a criação de Deus fosse agora eleita como inimigo. Com isso, a igreja perde sua capacidade de ser “sal da terra e luz do mundo”, além de criar sub-culturas cristãs herméticas e preconceituosas. A perigosa aproximação aos poderes seculares e políticos parece-nos ser outra tentação. Ela é inquietante em dois sentidos: o primeiro, o servir-se deles em benefício de uma tendência ou interesse particular; o outro, depender desses poderes, ou seja, deixar-se utilizar ou manipular por eles. Não é isso que temos visto? Não há em nossos dias uma aproximação perigosa com estes “poderes”, utilizando-se de uma infundada desculpa de fazer avançar o reino de Deus? O que muitos destes querem é fazer avançar o seu império pessoal...
Contudo, a infidelidade mais grave que postulo talvez seja a que tem maior atualidade em nosso tempo: o esquecimento da outra vida. Para muitos, e por que não dizer para a grande maioria, hoje o mundo atual é o único horizonte possível. Como conseqüência de vários fatores, se foi dissipando a referência à vida eterna, a projeção para uma vida além da que existe. Com isso, essa situação reduziu Deus a uma simples referência nominal na qual mal se pensa. E quando se pensa, pensa-se para saciar a condição atual, esvaziando o cristianismo de um de seus mais sublimes e principais conteúdos. Esta é a situação de grande número de pessoas que se consideram cristãs: católicas, ortodoxas ou protestantes. Para elas, o céu é o limite, conquanto devesse ser o destino. Estas são, por enquanto, algumas infidelidades ao cristianismo que observo.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O VÉU RASGADO


Ao fim da paixão, com a morte de Jesus, encontramos a narrativa de um intrigante acontecimento: o véu do templo rasga-se em dois, de alto a baixo (Mt 27:51, Mc 15:38, Lc 23:45). Havendo dois véus no templo, aqui se entende provavelmente o interno, isto é, o véu que impedia as pessoas de ter acesso ao Santo dos Santos. Apenas uma vez por ano, o sumo sacerdote poderia atravessar o véu e apresentar-se na presença do Altíssimo.
Agora, no momento da morte de Jesus, esse véu que representa todo o sistema sacrificial e de culto do Velho Testamento rasga-se de alto a baixo. Qual o significado deste acontecimento? O que ele representa? Antes, porém, de observar seu significado, saibamos que o véu rasgado foi um acontecimento crucial. Como um divisor de águas, ele separa duas dispensações, a saber: a velha, da nova. Foi também um acontecimento inaugural, isto é, ele inaugura um novo tempo, uma nova época, um novo sistema, uma nova aliança. Mas, enfim, o que o véu rasgado significa?


Uma Nova mediação

Em primeiro lugar, o véu rasgado significa uma nova mediação. O véu rasgado significa que o período do antigo templo com os seus sacrifícios e rituais como sistema de culto terminou. No lugar dos símbolos e rituais, que eram instrumentos de mediação entre o homem e Deus, temos agora a própria realidade e o único Mediador: Jesus Cristo crucificado que nos reconcilia com o Pai.
Em sua primeira visita ao templo, conquanto nos dias de seu ministério terreno, Jesus vaticinou sobre o término deste antigo sistema de culto, quando declarou: “Eu destruirei este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2:13-22). Jesus estava afirmando que o período deste templo com seus rituais e sacrifícios terminara, e que algo novo chegaria, relacionado com a sua morte e ressurreição.
O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, também fala da supremacia e da primazia de Cristo sobre o antigo sistema de mediação do judaísmo de sua época: “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (1Tm 2:5). Portanto, cuidemos de não introduzirmos outro mediador entre nós e Deus. Cristo é o único e suficiente Mediador, porque Ele é o único eficiente Mediador para nos conduzir a Deus!


Uma nova adoração

Em segundo lugar, o véu rasgado significa uma nova adoração. O rasgar-se do véu do templo significa que agora está aberto o acesso a Deus. Até então, o rosto de Deus estivera velado. Só por meio de sinais e uma vez por ano podia o sumo sacerdote colocar-se diante de Deus. Agora, o próprio Deus tirou o véu. Se em Moisés Deus nos ofereceu as “suas costas” (Ex 33:23), em Cristo Deus nos deu o seu rosto, sua vida e sua morte. O acesso a Deus está livre!
Esta sublime realidade é descrita de forma vívida no livro de Hebreus. Ele é o livro por excelência da supremacia de Cristo sobre as “sombras” (Cl 2:16,17) que o Velho Testamento descreve: Cristo é superior aos anjos (Hb 1), superior a Moisés (Hb 3), superior ao sábado (Hb 4), superior ao sacerdócio do VT (Hb 5), superior a antiga aliança (Hb 8) e superior aos sacrifícios e rituais da antiga aliança (Hb 9). O autor nos revela que, através do perfeito sacrifício de Cristo, “tenhamos, pois, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10:19,20). O acesso a Deus foi aberto. O véu foi rasgado. O sangue foi derramado. A obra foi consumada. Agora, adoramos a Deus em espírito e em verdade (Jo 4:23). Esta é a adoração proposta por Cristo.
Cuidemos, pois, para não retornarmos às sombras, já que nos foi revelada a luz, a própria realidade: Cristo. Cuidemos de não oferecermos a Ele “fogo estranho” em nossa adoração. Nosso culto é realizado pela mediação de Cristo, isto é, através de Cristo e para Cristo. Hebreus nos instrui a oferecer a Deus “sacrifício de louvor” (Hb 13:15), e não introduzir em nossos cultos elementos rituais e sacrificiais pertencentes à velha aliança, pois estes cessaram em Cristo.
Cuidemos de ouvir as palavras inspiradas do apóstolo, que já em seus dias labutava contra o erro e a intolerância dos judaizantes que teimavam em introduzir elementos do antigo sistema no culto cristão: “Ninguém vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém a igreja é de Cristo” (Cl 2:16,17).

sábado, 30 de julho de 2011


ELEMENTOS ESSENCIAIS QUE IDENTIFICAM A IGREJA DE CRISTO
João 15:1-16

INTRODUÇÃO

Cada local que conhecemos tem sua singularidade. São características que fazem do lugar único. Nessas férias de julho tive o privilégio de conhecer alguns lugares assim: marcados pela sua singularidade. Assim é o evangelho de João: singular. Há nele alguns elementos que o marcam como único e o destaca dos outros três (Mateus, Marcos e Lucas).

Uma das singularidades é a preocupação com a igreja. Ele deseja apontar quais são os elementos essenciais que a identificam como uma verdadeira igreja de Cristo. Isso está representado aqui neste texto sobre a “Videira Verdadeira”. Vejamos:

1. O primeiro elemento essencial que identifica a igreja é a sua união e permanência com Cristo (v 4).

A igreja de Cristo provém de sua união e permanência com Ele (a palavra “permanecer” ocorre dez vezes nestes dezesseis versos). Ela existe e subsiste devido a isso. O que faz da igreja ser igreja é que ela depende de sua união com Cristo para existir. Esta união e permanência mística é a base para qualquer realização lícita que a igreja venha desempenhar (v 5): “Sem mim, nada podeis fazer”. Sem isso, não há nada que glorifique a Deus, pelo contrário, serve apenas para ser lançado no fogo (v 6).

Permanecer com Cristo é permanecer na Sua Palavra (v 7). No sermão escatológico de Cristo, Ele fala da eternidade da Palavra (Mateus 24:35). “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão”. Ou seja, Jesus fala da permanência de Sua Palavra em contraste com a transitoriedade do mundo. A Palavra é eterna, enquanto o mundo é passageiro. Ele também fala da realidade absoluta de Sua Palavra em contraste com a relatividade do mundo. Cristo é o verdadeiro “fundamento” sob o qual a igreja e o homem devem estar e permanecer.

2. O segundo elemento essencial que identifica a igreja é a purificação e santificação por Cristo (v 1,2).

As religiões teimam em criar sistemas de purificação com a finalidade de dar ao homem a possibilidade do acesso a Deus, embora todas elas falhem. O que o evangelho trouxe à luz é que a pureza é um dom. É Cristo quem nos torna puros (Jo 13:10, Jo 17:3). É Ele quem declara: “Vós estais limpos”. É por meio de Sua bendita Palavra que a santificação ocorre (Jo 15:3, 17:17-19). É ela quem nos lava de toda imundícia do pecado e nos habilita a sermos “novas criaturas”.

Mas, como um dom, a pureza necessita de nossa cooperação. A santificação é um processo sinérgico, ou seja, há uma justa união entre o que Cristo faz e o que eu faço. Ela é um processo dinâmico de desenvolvimento do dom que recebemos de Cristo. Sem a santificação ninguém verá o Senhor, declarou o apóstolo Paulo. Isso significa que a fé genuína, posta agora em operação através da ação do Espírito Santo, santifica-nos a fim de sermos recebidos como servos bons e fiéis. A fé falsa, não.

3. O terceiro e último elemento essencial que identifica a igreja é a produção de fruto para Cristo (v 2,5,8,16).

A santificação não envolve apenas purificação, mas também missão (Jo 17:17-19). Significa que agora pertencemos a Deus para servi-Lo de todo o nosso coração. Significa uma nova destinação. Uma nova esfera de ação. O homem é destinado para Deus e não para si mesmo. Significa deixar de estar à disposição do homem e de seus interesses mundanos e colocar-se à disposição de Deus. À santificação segue-se a missão. O homem agora frutifica para Deus.

Há nele uma disposição para agradá-Lo e servi-Lo: (1) É uma disposição intensa (v 5): “Muito fruto”. (2) É uma disposição que glorifica a Deus (v 8): “Nisto é glorificado o Pai, em que deis muito fruto”. (3) É uma disposição permanente (v 16): “E o vosso fruto permaneça”. Dentre os frutos, o maior é o amor (v 12, 17, Jo 13:34,35). Aliás, o amor é a identidade do cristão.

CONCLUSÃO

1. A união e a permanência com Cristo nos habilita a ser igreja. A igreja advém de sua união com Cristo.

2. A purificação e santificação por Cristo nos capacita a ser igreja. A capacidade da igreja não provém de suas habilidades, mas de sua semelhança com Cristo.

3. A produção de frutos para Cristo nos disponibiliza a ser igreja. São através dos frutos que seremos reconhecidos.

Agora, notem: é com Cristo, por Cristo e para Cristo, “porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas”. Amém!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

DUAS METÁFORAS DA IGREJA

João é o evangelho da igreja. Ele o escreve para combater dois fortes inimigos: um de fora e o outro de dentro. O de fora são as perseguições desencadeadas por Roma. O de dentro eram as terríveis heresias que atingiam principalmente a divindade de Cristo. Daí, em João, Jesus ser apresentado como o Filho de Deus, o Deus Todo Poderoso, o grande “EU SOU”.
João escreve o mais teológico de todos os evangelhos, devido a sua preocupação com a igreja. A idolatria e o abandono da fé eram os dois males que estavam ocorrendo em função da perseguição e dos falsos ensinos. Diante disso, as duas narrativas, a da mulher adúltera e a do retorno de Pedro à pesca, tomam novos contornos. A minha impressão é que elas foram inseridas a fim de demonstrar algo mais. Talvez João quisesse denunciar os dois males que estavam ocorrendo na igreja da época: a idolatria e o abandono da fé!
Será que a mulher adúltera pode ser uma metáfora da igreja? Vejamos. Ela foi apanhada em flagrante adultério. Ela se prostituiu. Ela entregou o seu amor e a sua devoção a outro. Mas, não é esta a figura utilizada pelos profetas do VT para denunciar a idolatria de Israel? Não é esta a figura utilizada também por Jesus para denunciar a idolatria das Igrejas em Pérgamo (Ap 2:14) e também em Tiatira (Ap 2:20,21)? Será que nós também não temos entregado nosso amor e devoção a outro?
Ela foi alvo da graça e do perdão de Cristo. Ninguém ousou atirar-lhe a primeira pedra. Confrontados com seus próprios pecados, todos se retiraram. E Cristo ficou a sós com a mulher! A ela o tratamento de Cristo é pessoal e restaurador: “Nem eu tampouco te condeno. Vá e não peques mais”. Não é isto que Cristo faz constantemente à sua igreja? Perdoá-la e dar-lhe uma nova chance? Nós, que somos entregues à misericórdia de Deus todos os dias? Uma coisa é a sua igreja ser acusada diante dos homens: eles não têm misericórdia... Outra coisa é a sua igreja ser acusada diante de Cristo: ela alcançará misericórdia e perdão, pois Cristo nos ama acima de nossos amores pervertidos... Não foi assim com Oséias? Um dramático exemplo dessa maravilhosa graça?
Será que Pedro fugindo de sua verdadeira vocação pode ser uma metáfora da igreja? Vejamos. Pedro não somente retorna à pesca, mas leva consigo seus companheiros. Aquele que ouviu dos lábios de Jesus uma nova incumbência, retorna à sua velha vida. Trabalharam a noite toda e nada apanharam... Quando a igreja foge de sua real vocação, ela tende quase sempre ao fracasso: fracassou ao se misturar com o Estado no IV século; fracassou a abraçar a teologia da prosperidade; tem fracassado ao se misturar com a política em nossos dias...
Pedro vê um estranho na praia. Este estranho faz uma pergunta que lhe acentua o fracasso: “Tendes aí alguma coisa de comer?” Ele lhes dá uma ordem que é obedecida, obtendo uma pesca abundante. João reconhece Jesus e o diz a Pedro. Ele agora experimenta o gosto amargo de dois fracassos: o primeiro, o fracasso da pesca; o segundo, o fracasso da negação covarde de Cristo. É assim que muitas vezes a igreja se define: uma congregação de pecadores, traidores covardes que tantas vezes põe o interesse próprio acima do serviço a Deus... Uma congregação que tantas vezes abandona o seu real chamado e se alia ao poder secular para não perder seus “privilégios”... Uma congregação que tantas vezes se emudece diante de vozes tão menos expressivas...!
Mas, a despeito da vergonha da negação e da fuga da vocação, Jesus ama a sua igreja e conta com ela. Pedro vê um estranho na praia, mas Jesus não vê um estranho no barco. Quando a igreja foge de sua real vocação, Cristo a traz de volta, restaurando a comunhão com Ele e restaurando a vocação que provém dele. A refeição na praia e a declaração de amor revelam sua estratégia.
Voltemos às questões iniciais. A mulher adúltera pode ser uma metáfora da igreja? Sim, ela pode. E com ela aprendemos que o amor de Cristo é invencível. A despeito de nossos amores desgovernados e inconstantes, Cristo nos ama até o fim! A fuga de Pedro pode ser uma metáfora da igreja? Sim, ela pode. E com ela aprendemos que o dom e a vocação de Deus são irrevogáveis. Uma vez chamados por Cristo, o seremos até o fim!
Quando sou tentado a olhar para a igreja de Cristo como a “mulher adúltera” ou como “Pedro fugitivo”, lembro-me da pergunta de Jesus feita aos seus discípulos: “Vocês também querem ir embora”, e respondo como Pedro: “Senhor, a quem iremos, pois só tu tens as palavras de vida eterna”.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A CANÇÃO DO PROFETA NO DESERTO DA MORTE

Alguém já disse que há uma diferença entre o poeta e o profeta. Essa diferença está no ouvinte. É que o poeta canta suas canções para os vivos, enquanto o profeta canta suas canções para os mortos. O que os diferencia está no estado do ouvinte: se vivo ou morto. Daí a vocação do profeta ser tão difícil.
É fácil cantar para os vivos. Seus ouvidos estão preparados para receber a música. O seu corpo responde com satisfação ao toque da melodia. Há uma cumplicidade entre o que é falado e o que é ouvido. A música cumpre o seu papel: faz amor com o corpo que estremece diante da beleza. Mas, para os mortos, a coisa muda de figura. Não há resposta. O profeta é o poeta que canta quando não há ninguém para ouvir. Ele canta porque acredita no inacreditável: que mesmo diante da morte, há de se brotar a vida. O profeta é aquele que anuncia ressurreições.
Há nas Sagradas Escrituras uma história surpreendente de um profeta que foi levado ao lugar dos mortos. Ele era uma versão antiga de Louis Musset, um poeta francês que tinha um estranho hábito: declamar seus poemas nos cemitérios de Paris. Aquele era o lugar de sua vocação, um cemitério, cheio de sepulcros com ossos expostos. Nem sequer foram enterrados. Estavam lá, espalhados para quem quisesse ver. Uma visão aterradora, digna de um filme de terror. Ele tinha uma missão: trazê-los de volta à vida através da música que brotaria de suas palavras. Mas como ouviriam se estavam mortos? Que estranha tarefa foi-lhe comissionada: falar aos mortos!
Que palavra seria esta que tem o poder de trazer os mortos de volta à vida?... Ele entra na casa onde há pranto e dor: “... a menina não morreu, mas dorme...”. A cidade está cercada pelos exércitos inimigos, mas ele toma todas as suas economias e compra um pedaço de terra... O corpo da esposa há muito deixou de experimentar os poderes da fertilidade, mas ele compra um bercinho...
O profeta, descobri, é aquele que arranca a etiqueta da morte. Ele anda na contramão do tempo. O normal é nascer, viver e morrer. É a regra geral da vida. Os poetas seguem esta mesma trilha de certezas. Para os profetas, no entanto, é o contrário: morrer, renascer e viver. Por isso não é fácil ser profeta. Há muitos que se autodenominam, é verdade. Mas não passam de poetas medíocres que compõem suas rasas canções com aquilo que todos gostam de ouvir. É necessário, portanto, considerar o que o profeta não é, pois quando conhecemos o contrário, fica fácil entender o correto.
O profeta não é um educador. O educador é aquele que ensina visando à compreensão. O profeta, ao contrário, busca a transformação. Para ele, compreender é pouco. Ele quer mudanças. O professor explica tudo com detalhes a fim de que não haja lugares escuros. Seu negócio é a claridade. O profeta, ao contrário, gosta da neblina. Ele fala mistérios. Enquanto o negócio do professor é o sol, o do profeta é o Vento! E este, sopra onde quer. Independe da vontade e dos conceitos humanos.
O profeta também não é um artista plástico. O pintor é aquele que enfeita aquilo que está morto para devolver-lhe a aparência de vivo. Ele cobre a tela morta com luzes e cores. Ele cultiva as aparências estéticas. O profeta, ao contrário, não se interessa por aparências. Aliás, a última coisa com o que ele conta são com as aparências. Ele sabe que folhas, mesmo exuberantes e viçosas, não matam a fome de Deus. Ele não chama o morto de vivo e nem quer fazer o morto parecer vivo. O profeta não veio para melhorar ninguém. Ele quer vivificar. Tornar vivo o que estivera morto.
O profeta também não é um moralista. Ele tem a plena consciência de que é impossível dar ordens a uma pedra. Ele sabe que morto não responde aos apelos morais e éticos por um simples fato: ele está morto! E morto não é capaz de obedecer a ordens. Não há nada nele que o capacite a responder qualquer apelo que vem de fora. Quem vocifera normas e condutas num cemitério corre o risco de ficar rouco e solitário, quando não, ser taxado de louco.
Por fim, o profeta também não é um líder político. Político é aquele que fala o que todos querem ouvir. Sua estratégia é agradar com lisonjas ouvidos ávidos por prazeres estéticos. Faz promessas mirabolantes em troca de favores concedidos – o voto. Utilizam-se de quaisquer meios para alcançar seus objetivos. Trocam de pele segundo o ambiente em que se encontram. O profeta é diferente. Não tem o selo de nenhum partido por não aceitar meias verdades. Quem se prepuser a iluminar os outros não pode se contentar com verdades relativas. Sua palavra é a inversão da palavra política. Ele fala aquilo que a maioria não quer ouvir. Sua palavra não provoca arrepios sensuais pelo simples fato de provocar indignação em muitos. Ele herdou uma vocação e não uma profissão. E vai cumpri-la a qualquer custo.
Mas, que palavra é esta que tem o poder de trazer vida aos mortos? Certamente não pode ser uma palavra qualquer. Ela não pode pertencer à natureza do profeta. Apesar de arraigada em suas entranhas, a palavra não nasceu dele, fruto apenas de seu conhecimento e experiência. O seu local de origem não pertence à escala das coisas criadas. A palavra da experiência própria não tem o poder de gerar vida. Por isso há de vir de um Outro. Alguém com poder suficiente para ressuscitar os mortos.
Esta palavra não nasce da cabeça. A cabeça é o lugar das razões. É o local onde as racionalidades moram com todas as suas explicações matemáticas e científicas. A palavra do profeta nasce no coração. Ela fala de amor, não de razão. Como dizia o poeta: “O amor não tem porquês. Ama porque ama”. Profetiza bem quem ama, e não apenas entende. De bons entendedores o mundo está cheio. De bons interpretes as universidades estão abarrotadas. O que falta são os apaixonados. Homens que falam movidos pelo amor e não pela agenda.
É uma palavra que não tem por finalidade o esclarecimento, mas a invocação. Ela declara a verdade. Traz à existência a operação do sobrenatural. Liga o céu a terra, e a partir dela acontece o milagre.
Que palavra misteriosa é esta? Há de se obter a resposta nas Sagradas Escrituras. “No princípio era o Verbo. E o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. E vimos a Sua glória...”. A palavra do profeta que traz o morto de volta à vida é o Verbo de Deus - Jesus! E o milagre aconteceu... Como naquele cemitério judeu num livro que li sobre os horrores do holocausto, único lugar onde aquela jovem estaria a salvo das atrocidades dos soldados nazistas e das câmaras de gás, onde escondida numa sepultura próxima a sua, uma menina deu à luz um lindo bebê. O velho coveiro, guardador dos mortos e dos vivos, enrolou-o numa toalha e ao primeiro grito do menino, orou: “Grande Deus, finalmente envias-te o Messias! Pois que outra criança poderia nascer numa sepultura”.
E no cemitério, a vida apareceu...